13 segundos – Bel Rodrigues

Em 13 Segundos, seu livro de estréia, a youtuber Bel Rodrigues propõe uma reflexão sobre machismo, relacionamentos abusivos, exposição online e pornografia de vingança. Infelizmente, a execução fica muito aquém da proposta.

A história se inicia com a protagonista, Lola, decidindo aproveitar seu último ano no colégio com os amigos, após terminar um relacionamento com seu primeiro namorado. Durante as férias ela sai uma vez com as amigas para uma balada e acorda na cama de um desconhecido. É claro que no primeiro dia de aula ela descobre que o desconhecido é na verdade um aluno novo intercambista canadense que está na sua turma.

Apesar de os personagens principais estarem no terceiro ano do ensino médio, eles falam e se comportam como se fossem jovens adultos já na faculdade. A ausência de menções a vestibular, preocupações com provas e indecisões sobre carreira e o futuro entre os jovens quebra consideravelmente a verossimilhança.

Lola é uma protagonista com a qual é bem difícil desenvolver empatia. Todos ao redor dela a amam e reconhecem o seu talento para o canto, insistindo para que ela crie um canal no Youtube com seus covers. Ela tem uma beleza totalmente padrão, uma mãe extremamente liberal e amiga, uma irmã adotiva com quem não tem qualquer tipo de conflito, um grupo de amigos perfeitamente compreensivos (e que não têm personalidades, histórias próprias ou função narrativa além de apoiar Lola incondicionalmente) e para completar ela e o intercambista lindo se apaixonam.

A sensação durante a leitura é de que estamos lendo uma fanfic adolescente. Há enfoque demais no relacionamento de Lola com o rapaz canadense, que, assim como os amigos e familiares dela, não tem defeito. Ele é bonito, inteligente, companheiro. É estrangeiro mas fala português fluentemente. Está fazendo intercâmbio no ensino médio mas tem um carro e mora sozinho.

Os diálogos são forçados e recheados de palavrões fora de contexto. Os conflitos também não convencem – por exemplo, a decisão de criar ou não um canal do Youtube consome muito mais páginas do que deveria. Lola é tão perfeita que quando finalmente decide criar o tal canal só precisa gravar os vídeos uma vez, sem edição, e é um sucesso instantâneo, com milhares de visualizações e compartilhamentos (o que qualquer pessoa que já tenha criado um canal sabe ser bastante improvável).

Um dos maiores problemas da narrativa é que ele conta muito mais do que mostra. Por exemplo, sabemos que o relacionamento anterior de Lola era abusivo, mas de que forma?

O clímax da história – o vazamento de um vídeo íntimo de Lola – acontece tarde demais e praticamente não é desenvolvido. Ao invés de dar voz à vítima, a autora opta por tirar o foco narrativo dela justamente nesse momento, o que é uma decepção enorme, principalmente considerando que a dedicatória do livro homenageia todas as mulheres que compartilharam suas histórias com ela. Há uma passagem de tempo, algo muito improvável acontece e tudo parece se resolver milagrosamente com um desfecho muito insatisfatório. De que forma a vida de Lola mudou após o ocorrido? Como ela conseguiu lidar com isso e seguir em frente? O que houve com o criminoso? Nunca saberemos.

Este talvez seja o maior defeito do livro: ele é vendido como um livro sobre relacionamentos abusivos e pornografia de vingança mas não trabalha nem uma coisa nem outra.

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