A bruxa não vai para a fogueira neste livro

Para quem vive cercada por palavras, é muito irônico elas terem fugido quando estava tentando definir a experiência de leitura de “A bruxa não vai para a fogueira neste livro” da americana Amanda Lovelace (aliás PALMAS para a tradutora Izabel Aleixo). Então entendi a razão de estar sem palavras: é impossível definir o impacto que essa escrita teve em mim. Mas vou tentar descrevê-lo.

O primeiro livro – “A princesa salva a si mesma neste livro” (resenha aqui), é dividido em quatro partes que, lidas em ordem cronológica, contam a história da autora, o que envolve uma relação muito complexa com a mãe (e a perda dela), abuso, dor, busca por autoestima, conquista de si e de amor (próprio e por outra pessoa). Amanda Lovelace consegue, em poucas palavras, mostrar suas feridas e explicar como encontrou a cura para elas (algumas já cicatrizaram, outras não). Mas, embora o segundo livro “A bruxa não vai para a fogueira neste livro” tenha a mesma estrutura, o tom é completamente diferente.

Se no primeiro livro, Lovelace se mostrou fragilizada e narrou sua busca por força interior, no segundo, ela é a personificação dessa força. Suas palavras – embora poucas, como no primeiro – foram meticulosamente escolhidas para incendiar o leitor, tacar fogo no preconceito, nos “padrões”, em quem nos fere. Amanda está inflamada no segundo livro e seus poemas são mais agressivos, pois narram a busca pela irmandade e pela liberdade de padrões.

Os poemas de “Bruxa” são mais agressivos do que os que compõem “Princesa”, mas achei menos possíveis gatilhos neste do que no primeiro. É como se o primeiro fosse ferida aberta e o segundo fosse lança-chamas na mão. Fiquei até preocupada com o tom do segundo, pois ele é realmente MUITO agressivo, mas aí pensei: chega de sermos boazinhas, né? Não é o caso de generalizar um gênero, mas de evitar que o outro – que também é tão plural – seja submetido ao silêncio. Em um dos últimos poemas, Amanda reforça a importância da irmandade e de que não podemos perder a empatia. E sim, é necessário esse último lembrete.

Embora Rupi Kaur seja mais conhecida por esse tipo de escrita – poucas palavras sem muita métrica ou rima, mas que resultam em muita reflexão e sentimentos -, a escrita de Amanda Lovelace ressoou mais comigo. Não sei se foi porque a li antes de Rupi ou se é porque sei que ela é tão nerd quanto eu. Minha única certeza é que tudo que Lovelace escrever, vou querer ler.

O primeiro livro tem uma linda dedicatória a Harry Potter, o Menino que Sobreviveu. O segundo é dedicado a Katniss, a Garota em Chamas. O terceiro livro de Amanda Lovelace completará a trilogia “Mulheres têm uma espécie de magia” e trará a sereia para completar a tríade princesa-bruxa-sereia. Seu título será “A sereia não perde a voz neste livro” (conforme entrevista concedida ao Cheiro de Livro. Leia a íntegra aqui ). Mal posso esperar para saber a quem será dedicado o livro, como também o tom e a história que ele trará. Afinal, já não precisamos ser resgatadas, nos recusamos a queimar e está mais do que na hora da nossa voz ser ouvida.

 

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