A Bruxa

a bruxa

Nas redes sociais, no trabalho, entre meus amigos, a pergunta é a mesma: “O que você achou do filme ‘A Bruxa?’”.

Então resolvi escrever algumas ideias aqui para deixar registrada a minha opinião. Não considero uma crítica cinematográfica porque não vou me prender em pontos importantes que compõem esse gênero. Vou apenas citar minhas opiniões e pontos de vista que podem vir a ajudar a galera curiosa.

Primeiro, como a nossa colaboradora Raphaela Ximenes bem escreveu em sua crítica  e eu concordo, é essencial levar em consideração um detalhe que faz toda a diferença: o subtítulo do filme: “A New England Folktale (Um Conto Folclórico da Nova Inglaterra)”. Esse detalhe é o que vai praticamente abrir a porta para a interpretação do que você vai assistir e é determinante no “curti” ou “não curti” ao final.

De cara, estamos em um julgamento durante o qual a família protagonista está sendo julgada pelo que “parece” ser uma má pregação do Evangelho. Não, não estão sendo acusados de bruxaria e nem sentenciados à morte. Estão sendo exilados o que, naquela época, era quase tão pior quanto queimar na fogueira.

A família então pega seus míseros bens, sobe na carroça e toca o bonde para longe da protegida comunidade. Os pais, William e Katherine (não vou citar os nomes dos atores para focarmos na história), pegam seus cinco filhos – Thomasin (a mais velha e nossa protagonista), Caleb, os gêmeos Mercy e Jonas e o bebê Samuel – e acham uma clareira às margens de um riacho e de um bosque bem denso. Assim que acham, saúdam o local de joelhos, como que agradecendo a Deus pela bênção.

E aí a situação começa a ficar tensa.

Primeiro ponto a observar, o bosque: símbolo do desconhecido, do perigo.

Desde sempre temos contos de fadas que contam histórias aterrorizantes que têm como objetivo manter as crianças na linha, tementes a Deus e inocentes. E onde Chapeuzinho encontra o Lobo? No bosque. Onde João e Maria são deixados? No bosque. Aliás, pausa para o tal capuz vermelho: tenha ele em mente ao assistir “A Bruxa”.

Continuando, a única personagem que temos em vários “superclose” (quando a câmera pega o rosto da atriz em todo o enquadramento) é Thomasin, o que indica que é nela que temos que focar nossa atenção. Durante suas preces, a moça confessa que está tendo pensamentos pecaminosos, que está sendo negligente com trabalhos de casa e com sua fé. Em outro momento, Thomasin está conversando com o irmão, relembrando como era a casa deles na Inglaterra e como eles tinham coisas bonitas e que ela sente falta. Ou seja, uma típica adolescente que almeja mais do que sua atual situação. Isso no século XXI é normal, mas naquela época … uma mulher questionadora deveria ser uma bruxa! Sim, era uma época de histeria religiosa e esse é um outro ponto muito importante a observar.

Não vou entrar em vários detalhes para não estragar o filme, mas vou listar símbolos sem mencionar quando aparecem para evitar spoilers. Se você já assistiu, vai reconhecer. Coloque em contexto e me conte o que achou.

Bode preto: clássico símbolo do Demônio, resquício do culto ao deus grego do vinho, Dionísio, que era um sátiro, ou seja, metade bode.

Lebre: símbolo de loucura.

Maçã: fruto proibido

Esses são apenas alguns. Já deu para notar que o filme não é qualquer coisa, né?

Outro ponto excelente: as figuras como o Demônio e a Bruxa não aparecem nos mínimos detalhes, o que deixa o filme ainda mais tenso e bem feito e original. Na boa, um relance assusta muito mais do que efeitos especiais. Aliás, a iluminação quase que natural e a produção em locação e não em estúdio fizeram toda a diferença para a ambientação do filme. Tornaram a lenda mais real e menos “plástica”.

Para finalizar, vamos relembrar que eles foram expulsos por não seguirem as regras da paróquia local, por questionarem a interpretação do Evangelho. Mas durante todo o filme, vimos como o pai se preocupa com sua família, vimos como a mãe inveja a juventude da filha, mas é devota aos filhos como um todo. Ou seja, não são más pessoas. Então, porque sofrem tanto nas mãos de bruxas e demônios? Porque o tal “conto folclórico da Nova Inglaterra” é sobre eles. Eles são o conto de “fadas” que é contado em gerações para evitar questionamentos. Eles são o “era uma vez, uma família que questionou as escrituras e foi banida….”.

E é por isso que achei “A Bruxa” um excelente filme. Ele traz uma narrativa diferente, repleta de simbolismos (que eu adoro) e um ponto de vista não tão explorado. Mas é preciso que nós como público tenhamos a cabeça aberta para entender a arte na telona.

Mas, por favor, se for para comparar com “A Bruxa de Blair”, que seja apenas na novidade do fluxo narrativo e no fato de ambos terem “bruxa” no nome. E ponto final.

Agora assiste de novo, reflete e conta aqui o que achou.

E se quiser saber um pouco mais sobre contos de fadas sangrentos, chega aqui.

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