A Casa Assombrada

Um fato curioso: terror é o gênero que mais amo em filmes e que leio menos do que gostaria. Não sei a razão disso, já que cresci lendo R.L.Stine (autor de “Goosebumps” e de outros livros de terror para jovens) e Christopher Pike (no mesmo estilo de Stine). Curto Stephen King, mas prefiro o estilo de seu filho, Joe Hill e adoro “O Livro do Cemitério” de Neil Gaiman, que é terror, mas não é. E Poe, como não amar Edgar Allan Poe? E … nossa, a lista é longa! Mas o engraçado é que li tudo isso no passado e não mantenho o hábito de ler livros de terror.

Até agora.

Em 2013, soube do livro “A Casa Assombrada” de John Boyne enquanto estava de férias em Londres. Na verdade, quem sugeriu foi a atriz Amanda Abbington, esposa do ator Martin Freeman. Eu tinha acabado de ver um exemplar lindo, de capa dura (caríssimo!) na Forbidden Planet, quando li o tweet da Amanda e, com uma dor no coração, pensei “Ai…. vou ter que deixar passar”.

Mas aí, em 2015, a Companhia das Letras traduziu (excelente tradução de Henrique de Breia Szolnoky!) e trouxe o romance para o Brasil. Chegou à minha casa, mas eu ainda tive que ler outros dois livros de terror antes de tirá-lo da estante. Sou assim: geralmente escolho um gênero e leio uns três ou quatro livros do mesmo gênero, um seguido do outro.

Finalmente chegou o dia de eu tirar a poeira de “A Casa Assombrada” e mergulhar de novo na escrita de John Boyne, autor dos excelentes “O Menino do Pijama Listrado” e “Fique Onde Está e Então Corra”. Boyne escreve pelo ponto de vista da protagonista Eliza Caine, uma mulher de 21 anos em 1867 que acaba de perder seu pai, a única família que tinha. Sozinha e sofrendo muito pela perda, Eliza lê um anúncio para a posição de governanta no interior, Gaudlin Hall, no condado de Norfolk. Se não estivesse tão desesperada para deixar Londres e as lembranças do pai para trás, Eliza teria notado que o anúncio não explicava muito sobre a posição, quantas crianças deveriam estar sob seus cuidados e quais seriam suas responsabilidades. Mas a moça decide trocar sua posição de professora em uma escola para meninas e segue para o interior, para longe de tudo que conhecia.

Chegando a Gaudlin Hall, Eliza é recebida por duas crianças: Isabella (inteligente e perspicaz demais para seus 12 anos) e Eustace (seu irmão de 8 anos). E nenhum adulto. Mas onde estão os donos da casa? E os criados? E quem escreveu o anúncio?

Eliza não descansa até encontrar respostas e nós a acompanhamos na busca delas. E nos frustramos tanto quanto ela ao percebemos que segredos cercam a mansão e a família e que, ao mencionar que é a nova governanta de Gaudlin Hall, Eliza encontra apenas olhares de pavor e/ou pena.

E, fazendo jus ao nome do livro, passamos por sensações estranhas, vultos, janelas que se abrem e fecham sem explicação, cortinas que se movem sozinhas e ventos desproporcionais soprando pela propriedade.

E aí a situação só piora!

“A Casa Assombrada” é perfeito para quem ama livros de terror clássico, com aquela pegada gótica de questionar sanidade e mortalidade e utilizar elementos como fantasmas e neblina inexplicável.

A narrativa de John Boyne cativa desde o início, quando estamos conhecendo Eliza, e depois, quando somos apresentados às crianças e aos moradores de Norfolk. Boyne escreve a protagonista de forma excelente e coerente, tocando também em temas como a posição feminina na sociedade (e não somente dentro de casa, mas sim na classe trabalhadora). Aos poucos, conforme seguimos Eliza ser cada vez mais assombrada na casa, também a vimos desabrochar na mulher determinada a não ser vencida. Ela tinha todas as razões para desistir e fugir, mas se recusa. E isso é muito interessante de ler.

“A Casa Assombrada” trata, sim, de uma assombração clássica, mas mexe com a crença da protagonista na religião, nos outros e nela mesma.

Dica: se você se impressiona com livros ou filmes de terror e tem medo desse gênero, não leia “A Casa Assombrada” à noite. É sério! Não é o fato das manifestações da assombração serem assustadoras demais, mas sim de Boyne ser um excelente escritor e nos deixar em tamanha expectativa que, se o telefone tocar durante a leitura, rola de sofrermos um mini-infarto!

Esse foi o livro que comecei em 2015 e terminei em 2016 porque precisava que fosse assim: uma história degustada em um momento de transição. Super a ver com o que está nas entrelinhas da história.

Existem muitos mistérios no livro e parte da experiência é descobri-los com Eliza. Por isso, muito cuidado ao buscar informações sobre “A Casa Assombrada” na internet antes de lê-lo. O que é irônico eu escrever aqui, mas tudo bem! Mas sério, cuidado. Qualquer informação a mais pode ferir a ambientação do livro. Vale ler sem olhar para os lados! Vai na fé e se prepare! Arrepios são garantidos!

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