A decepção literária

Esse é um sentimento que experimentamos muito cedo na vida, logo na pré-adolescência, quando decidem que estamos prontos para ler livros que na verdade não estávamos. Pelo menos foi assim na minha época. Sempre tive uma relação muito boa com os livros, desde que aprendi a ler e ganhava livros da minha família. Amava a forma como as palavras se tornavam imagens e pessoas na minha cabeça e me perdia nesses mundos. Mas, na escola tudo mudou e foi quando descobri a decepção literária. O engraçado é que gostava de boa parte dos livros que éramos obrigados a ler, mesmo os que eu entendia pela metade. Só que teve um, “A Estrela Sobe”, de Marques Rebelo, que contava a história de uma antiga cantora de rádio. Um livro pesado, cheia de amargura, completamente inadequado para uma turma de sexta série. Foi com esse livro que descobri que algumas vezes eu iria me deparar com livros que não me agradariam. O problema é que passei boa parte da vida ouvindo que por pior que fosse o livro (pra mim) eu deveria ler até o fim, assim segui em frente e não perdi o amor pela leitura, muito pelo contrário. Lia o que precisava para a escola e outros por pura diversão, assim conheci muitos livros.

Reconheço que esse método do “tem que ler até o fim”, criou um sentimento ruim em muita gente que deixou a leitura de lado lá pelo segundo grau e foi ter uma vida adulta sem livros obrigados, mas também sem livro nenhum. Acho uma vida triste, mas a culpa não é dessas pessoas. Já adulta, caiu em minhas mãos o livro “Frenesi Polissilábico” do Nick Hornby, um dos meus autores favoritos, e nele há um momento que abriu um novo caminho pra mim. Ali Hornby nos libera da obrigação de terminar um livro que não é prazeroso. Ele simplesmente explica que aprendeu que não há necessidade de se ler um livro até o fim se esse livro não te agrada. Eu sei que isso é óbvio, mas até então não era pra mim. Dali me senti mais livre ainda em meu ritual de leitura e dentro dessa liberdade descobri novos estilos, novos autores e novas paixões.

Incrível como a decepção literária pode ser nociva, pode podar seus limites e te prender em um só estilo por medo de encontrar livros ruins pelo caminho. A leitura quando obrigada é tóxica, porque qualquer obrigação forçada contra a sua vontade não é legal. Se obrigar a ler um livro porque todo mundo tá lendo ou um autor porque todo mundo gosta, não te faz automaticamente gostar também. Pare, perceba se aquele é um livro pra você. Se não for, feche, deixe no canto e busque outro. Experimente, divirta-se, mas não se obrigue além do seu gosto, pode ser ruim. Ler é a melhor aventura que existe e não decepcionante.

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