A evolução do Rei

Dia 21 de setembro Stephen King completou 71 anos, dos quais 44 é conhecido como escritor, desde que lançou “Carrie” em 1974. Já comentei várias vezes aqui sobre como me tornei fã dele muito cedo, como ele influenciou meu amor por livros e filmes de terror e até comentei sobre o quanto suas personagens femininas são bem construídas. Mas hoje quero falar sobre sua evolução e como a cada livro novo ele se reinventa.

Durante esses 44 anos, King manteve-se tão ocupado escrevendo que precisou de um pseudônimo – Richard Bachman – para poder lançar dois livros por ano, já que sua editora acreditava que dois livros assinados por Stephen King, por ano, não venderiam tão bem. O problema é que toda essa criatividade era alimentada por drogas e álcool, um problema que começou a afetar tanto sua vida que ele mal lembra de como escreveu “Cujo” em 1981. Esse período sombrio de sua vida influenciou alguns de seus livros mais comentados, como “Christine”, “Pet Sematary” e “It”. Apesar de até hoje King se arrepender de ter escrito “Pet Sematary” por ser macabra demais. O fim da década de 1980 foi quando Tabitha, esposa de King e alguns amigos o encostaram na parede e disseram que ele precisava acabar com seus vícios ou ele iria morrer. Mesmo que ele não deixasse que as drogas influenciasse sua  vida em família, ele acreditava que precisava delas para continuar escrevendo e sendo tão produtivo. Curiosamente, para mim, o período mais sombrio de King é quando ele escreve os três livros que considero o ponto alto e divisor de águas em sua carreira: “Misery”, em 1987; “The Dark Half”, em 1989; e “Needful Things”, em 1991 – primeiro livro que ele escreve completamente sóbrio. Os três são claras analogias sobre como King se sentia como escritor, principalmente o último onde usa a analogia sobre vender a alma ao diabo em troca do que ele desejava.

É muito fácil comentar sobre os grandes sucessos de King, sobre os livros que o tornaram famoso, mas essa segunda fase de sua carreira é bem conturbada, com livros completamente intimistas e histórias que refletiam sua nova forma de ver o mundo, sem o filtro das drogas. Infelizmente não é o momento favorito dos fãs, que sentiam falta do velho Steve. Dessa nova fase, gosto muito de “Insomnia”, de 1994, quando King parece se dar conta de que está envelhecendo e cria uma bela alegoria sobre. Misturando questões sociais, como o direito ao aborto, violência doméstica, a temas sobrenaturais, o autor se mostra bem mais maduro e pronto para essa nova fase. Já em 1996 ele parece ter acertado o passo e lança dois livros que mostram que o antigo King ainda existe, “Desperation” e “The Regulators”, que seria o livro póstumo de Richard Bachman. Esses dois livros são um belo presente para os fãs, já que eles se complementam com personagens que se repetem, mas trocam de papeis. Em ambos livros aparece a entidade Tak, criada por King no universo dos livros da saga “Torre Negra”.

1999 é o ano que Stephen King sofre o terrível acidente em que é atropelado. Em 2000 ele lança apenas um livro: “On Writing”, quando decide falar sobre sua experiência como escritor, sobre sua vida pessoal e sobre o acidente. Entre 2003 e 2004, ele finalmente terminou a saga da “Torre Negra”, depois de 22 anos e fechou mais um ciclo em sua carreira.

“The Colorado Kid”, de 2005 mostra o amor de King por livros de mistério e policial. Desse ano em diante o autor parece se livrar de vez de seus fantasmas e suas histórias tão intimistas, sobre monstros internos, passam a ser sobre monstros que vivem entre nós. Sobre os males do novo Século, sobre como nem sempre o mal é sobrenatural e que quando se manifesta pode trazer a tona o pior do ser humano. Mas minha fase favorita desse novo King começa com “Dr. Sleep”, em 2013, quando ele faz o impensável e escreve uma sequência para “O Iluminado”. De cara foi preocupante, teria King desistido de criar novas histórias? A verdade era que ele precisava fazer as pazes com seu passado, pegar Danny Torrance pela mão e o libertar, assim como ele estava livre. Fechar a pior fase da sua vida com esse livro, foi genial. Agora estava pronto para começar de novo, de conquistar novo público e seguir em frente. O novo King, totalmente em paz com o antigo, é o que nos dá presentes especiais como a trilogia do Bill Hodges, entre 2014 e 2016, escreve um conto de fadas macabro com seu filho mais novo, Owen King, “Sleeping Beauties” e chega ao meio de 2018 com um novo livro que merece estar entre suas melhores obras: “The Outsider”.

2017 foi o ano que redescobriram King no cinema, com uma excelente adaptação de “It”, uma série de televisão baseada na trilogia começada com “Mr. Mercedes”, além de uma série, em 2018, baseada em seu universo: “Castle Rock”.

Entre romances, coletâneas de contos e livros de não-ficção, King produziu 86 livros. É super ativo nas redes sociais, um homem que se mantem atualizado sobre cultura, música e, principalmente, política. Seus últimos livros são completamente atuais e focados nos tempos em que vivemos. Uma característica que King nunca perdeu, conseguir transmitir em suas histórias exatamente o tempo em que vive. Conhecer as obras de King é viajar através de sua história pessoal assim como através da época em que foram escritas, é estar perto de uma das mentes mais ativas de nosso tempo, que felizmente não parece querer descansar tão cedo, já que ainda esse ano mais um livro assinado por Stephen King vai ser lançado. Vida longa ao Rei!

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