A Incendiária

Não sei se já mencionei que comecei a ler Stephen King bem nova, com 13 anos, quando minha tia me deu “A Zona Morta” para ler. Esse foi o ponto de partida para buscar na biblioteca, perto da minha casa, outros livros dele, entre eles A Incendiária. Logo em seguida vi o filme com Drew Barrymore no papel principal. Esse foi mais um filme que entrou para o imaginário pop por causa da menininha que colocava fogo nas coisas com o poder da mente. Nem é um bom filme, como a maioria dos filmes baseados em livros do King na década de 1980 e 1990, mas todo mundo lembra da Charlie de Barrymore.

O livro esteve fora de catálogo por um bom tempo e agora a Editora Suma o relança em edição especial com capa dura, material extra e nova tradução de Regiane Winarski. Esse é o quarto livro da coleção Biblioteca Stephen King, que está relançando clássicos do autor nesse formato especial. É importante a Suma estar relançando livros menos conhecidos do King por aqui porque lá na década de 1980 eram livros lançados em edições sem cuidado, principalmente com as traduções.

A Incendiária é o oitavo livro lançado por Stephen King e, para mim, o que dialoga quase que diretamente com “Carrie”, como explico na comparação que faço entre Carrie e Charlie no texto sobre as mulheres de King. Enquanto Carrie se torna um caso de polícia depois de manifestar seus poderes telecinéticos, Charlie é fruto de um experimento do Governo dos EUA com LSD que eles perdem o controle.

Andy McGee e Vicky Tomlison participaram de grupos de experiência com LSD nos anos 1980, através da agência do governo conhecida como a Oficina. Durante essa época Vicky ganhou poderes telecinéticos e Andy a capacidade de controlar a mente de outras pessoas, porém com efeitos colaterais. Na mesma época Andy e Vicky se casaram e tiveram uma menina chamada Charlene McGee. Porém a pequena Charlie desenvolve poderes mais fortes que os dos pais, já que consegue colocar fogo nas coisas apenas com o poder da mente. No início do livro, Vicky está morta, assassinada pela Oficina, e Andy está fugindo com Charlie por Nova York. Enquanto procuram um lugar seguro para se esconderem, Andy lembra de tudo pelo qual passou ao lado de Charlie, em flashbacks.

Enquanto Carrie era uma menina tímida e castrada pela mãe extremamente religiosa, que acaba liberando seus poderes durante a puberdade como uma metáfora sobre se tornar mulher em um mundo que dita como uma mulher deve ser, Charlie é essa menina que tinha uma vida tranquila no subúrbio, criada por pais que tinham um passado livre e que agora apenas buscavam ser normais. Sua vida muda tragicamente com o assassinato de sua mãe e o medo de virar uma cobaia de laboratório. Mas, ao contrário de Carrie, Charlie não é castrada e passa a entender seu poder e o controlar a seu favor, mesmo sendo tão nova.

No livro, ao mesmo tempo que mais uma vez King usa poderes especiais como metáfora para o amadurecimento feminino em um mundo patriarcal castrador, ele também faz uma crítica ao Governo norte-americano, com a Oficina, com os experimentos com LSD e através do personagem Rainbird, um assassino profissional que está atrás de Andy e Charlie. Rainbird é veterano da Guerra do Vietnã, um dos muitos que foi abandonado pelo governo. Vale lembrar que esse é um livro escrito por um King bem mais novo, com muita raiva do mundo que tratou ele e sua mãe muito mal por muito tempo e essa raiva é bem clara na ira de Charlie. É bem forte ver uma menina tão nova espalhar um rastro de morte violenta por onde passa, ao mesmo tempo que é compreensível sua atitude por estar assustada e com raiva.

Esse não é um dos livros mais fortes de Stephen King. Ainda há uma necessidade de amadurecimento do autor e edição da história que dá tantas voltas que acaba sendo um pouco confusa. Mas conta com momentos inesquecíveis e grandiosos, como a primeira vez que Charlie manifesta seus poderes, até porque mesmo sabendo do que ela é capaz não é possível dimensionar até chegar de fato na cena. A capacidade de descrever uma cena de forma cinematográfica é uma das muitas habilidades que King tem e a que mais cativa seus leitores. Mesmo que ele enrole muito em cenas e detalhes que não pareçam ser importantes, ele monta o cenário com perfeição para os leitores poderem ter uma ideia nítida do que ele quer transmitir e esse, com certeza, é um dos trunfos de A Incendiária.

O uso de flashbacks para explicar o presente também é muito bem utilizado, mas ele acaba se perdendo no meio. Talvez mais de 400 páginas seja excessivo em um livro que pretende ser um thriller. Compreendo a necessidade de King de falar sobre Andy dopado, desanimado, viciado, mas ele perde o foco e o livro ganha um tom arrastado que só perde quase no fim, que acaba sendo corrido.

Porém, esse é, sem dúvida alguma, um clássico de King, um que deve ser conhecido e lido, principalmente para se entender melhor seu estilo, de onde ele veio até chegar ao autor que é agora. A Incendiária é sem dúvida um clássico pop totalmente necessário em qualquer biblioteca pessoal.

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