A Poeta X

A Poeta X é o romance de estreia da autora novaiorquina de ascendência dominicana Elizabeth Acevedo. Publicado no Brasil no final de 2018 após estrondoso sucesso nos EUA, chegou inclusive a ganhar o National Book Award desse ano na categoria literatura juvenil. Conhecida por suas performances em poetry slams e já tendo publicado a coletânea de poemas folclóricos Beast Girl & Other Origin Myths, Acevedo se arrisca pela primeira vez com um romance e acerta em cheio. A edição brasileira é da Galera Record e conta com uma tradução primorosa de Giu Alonso.

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Escrito em versos, o livro é dividido em três partes. Xiomara Batista é uma adolescente filha de pais dominicanos vivendo no Harlem, em Nova Iorque, que encontra na poesia uma forma de lidar com os conflitos e contradições de crescer e descobrir a própria identidade e sexualidade num ambiente extremamente castrador. Sempre ensinada a calar e a baixar a cabeça, Xiomara tenta encontrar a própria voz entre a religiosidade sufocante da mãe, a ausência emocional do pai e o machismo que permeia a cultura de sua comunidade.

Acevedo se revela uma contadora de histórias excepcional ao conseguir construir apenas com versos curtos e ritmo muito bem marcado a personalidade marcante de Xiomara e todo o universo que a cerca, com suas muitas relações carregadas de sentimentos antagônicos.

Pode-se dizer que as temáticas principais do livro são identidade e família, sendo a relação da protagonista com sua mãe a mais marcante em ambos os aspectos: como lidar com a ideia de que talvez sua mãe não seja o modelo feminino que você deseja seguir? E como desenvolver uma relação de amor e respeito com uma mãe que na maior parte do tempo só inspira medo e revolta?

Os personagens secundários também são muito bem construídos com destaque para o irmão gêmeo genial de Xiomara – a quem ela se refere simplesmente como “Gêmeo” – que revela como a masculinidade tóxica também causa dano aos meninos, sobretudo aqueles que divergem do padrão estabelecido de alguma forma.

Há muitos elementos da cultura dominicana no livro, mas alguns se mostram tão semelhantes à brasileira que provavelmente são universais em toda a América Latina, tais como o machismo onipresente (cantadas de rua, objetificação de meninas, expectativas e cobranças diferentes para os filhos de acordo com o gênero) e a influência do cristianismo (particularmente do catolicismo no livro) em praticamente todos os aspectos da vida cotidiana.

A Poeta X é uma leitura rápida porém nem um pouco leve. É o tipo de livro em que dá vontade de parar e marcar várias passagens a cada duas ou três páginas. É um livro em que você se pega pensando durante dias. É um livro que dá vontade de ler em voz alta.

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A poeta Elizabeth Acevedo em conversa no Rio de Janeiro em dezembro de 2018

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