A Revolta da Chibata

A primeira vez que ouvi sobre João Cândido foi na música de Aldir Blanc e João Bosco “O mestre-sala dos mares” (Glórias a todas as lutas / Inglórias / Que através da / Nossa história / Não esquecemos jamais / Salve o navegante negro / Que tem por monumento/ As pedras pisadas do cais.), foi a partir dos versos que fui começar a descobrir a revolta da chibata. É um desses grandes acontecimentos da nossa história que simplesmente passa batido na escola e que se tem que buscar para poder conhecer.

O livro “A Revolta da Chibata” foi editado pela primeira vez em 1958 e mesmo passados 48 anos da revolta liderada por João Cândido teve dificuldades de chegar as livrarias por interferência da Marinha, o livro foi reeditado em 2010 em comemoração ao centenário do fato e é esse livro que volta a ser editado agora. Edmar Morel era um grande jornalista e passou anos juntando documentos e entrevistando o próprio João Cândido para conseguir montar o panorama que apresenta. É interessante ver como a Marinha atuou ao longo de décadas para que essa revolta se torna-se obscura, para que fosse esquecida pela história, ainda bem que não conseguiu.

A história da revolta é amplamente conhecida: marinheiros se rebelaram em navios da Marinha contra o castigo corporal que recebiam por qualquer indisciplina ou falta, as chibatadas. João Cândido era marinheiro no poderoso Minas Gerais e liderou a revolta. Os navios ficaram na Baia de Guanabara e ameaçavam bombardear o Rio de Janeiro, então capital da república, se as chibatas não fossem extintas. O ano era 1910 e o presidente Hermes da Fonseca tinha acabado de tomar posse e se viu tendo que debelar uma revolta que incluía o poderoso encouraçado Minas Gerais, navio que era a joia da coroa da Marinha. Em poucos dias o governo atendeu a exigências dos revoltosos e o senado garantiu a anistia dos marinheiros envolvidos. Tudo seria lindo: uma revolta contra uma situação degradante teria a vitória dos mais humildes. Pena que não foi isso que aconteceu, a revolta deu certo, os castigos corporais foram abolidos da marinha, mas a ingenuidade dos marinheiros e a crueldade do governo gerou muitos outros capítulos.

Depois da revolta da chibata ocorreu a revolta na Ilha das Cobras e essa foi a desculpa para prender os marinheiros anistiados e começar a barbárie. João Cândido foi preso em uma sela sem janela junto com outros companheiros, a marinha atirou cal virgem nos prisioneiros, depois de dias dos 17 presos apenas dois sobreviveram. João Cândido passou o resto da vida na miséria, viu sua mulher e filha se suicidarem ateando fogo as vestes e morreu pobre e com quase nenhum reconhecimento oficial. O restante dos companheiros de revolta não tiveram a mesma sorte, a Marinha os prendeu, colocou-os no navio Satélite e no meio do caminho entre Rio e Pará eles foram fuzilados. Isso mesmo, aconteceu uma execução sumaria de homens que se revoltaram contra os castigos físicos impostos.

Toda a história da revolta da chibata e seus desdobramentos são fascinantes o problema é que chegar ao final do livro é um árduo trabalho. Pode ser por ser um texto originalmente escrito na década de 1950 ou simplesmente porque a estrutura não colabora, não sei dizer, só sei que o livro se torna maçante com seu excesso de citações de discursos, de debates na câmara e no senado, textos que confirmam ou desmentem passagens. É um desses casos em que o que se conta é maravilhoso e o como se conta deixa a desejar. Mesmo não sendo das leituras mais simples é importante, é sempre importantes sabermos mais sobre a nossa própria história.

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