Animais Fantásticos e Onde Habitam (o filme)

fantastic-beaststexto Lá em 2011 foi bem difícil dizer adeus a Harry, Hermione e Ron, despedir de Hogwarts, de seus professores e voltar a ser uma trouxa comum. Mas quem é tocado pelo mundo da magia nunca mais se acostuma com o comum, ela permanece adormecida dentro de nós e qualquer faísca faz com que ela acenda e brilhe com muita intensidade.  Ir ao cinema, entrar na fila, sentar na poltrona e colocar os óculos 3D para voltar ao mundo criado por J. K. Rowling é uma experiência indescritível. Não cresci com os livros da saga de Harry Potter, porque já era adulta conforme eles eram lançados, mas li cada livro e vi cada filme acompanhando os personagens amadurecerem e amadureci de alguma forma com eles também. Como todo mundo, aprendi cada feitiço, me afeiçoei a cada personagem, sou, com muito orgulho, uma trouxa diplomada em entender a magia que existe no mundo, mesmo que muitos afirmem que não existe ou que é “coisa de criança”.

Por todas essas razões, ver Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them, EUA, 2016) foi mais do que a faísca, foi um vulcão adormecido que despertou e me lembrou o quanto se desprender e se deixar levar por aquele mundo é tão incrível. Esse é um filme para iniciados, para aqueles que conhecem as piadas internas, que sabem quem são alguns nomes que passam pela tela, que reconhecem feitiços e histórias. Mas isso é ótimo, porque para os fãs é como voltar para casa, para um lugar conhecido e acolhedor e para os que não conhecem, criar curiosidade de aprender sobre esse mundo maravilhoso, até a despertar em uma nova geração amor e fascínio por Harry Potter e sua saga.

Eu sei que J. K. é puro amor e tal, mas pensar que ela pegou um personagem que primeiro só aparece como o autor do livro de magizoologia que Harry e companhia usam na escola, depois escreveu o livro listando todos esses animais fantáticos, para no fim transformar Newt Scamander  em um personagem adorável pelo qual é muito fácil se afeiçoar e torcer, além de criar toda uma trama de fundo com o mundo da magia, mostrando situações que apenas são citadas ou percebidas na saga original, é totalmente mindblowing. Animais Fantásticos é exatamente isso, através da história fofa de Newt e sua busca através do planeta por animais fantásticos, caímos num cenário onde bruxos tem medo de se mostrarem e que vivem clandestinamente em um mundo dividido.

Voltamos até 1926, em Nova York, quando Newt desembarca de um navio na Ellis Island e ali já percebemos o mundo hostil que é a América. Um mundo entre Guerras, vivendo a tensão de uma pré-recessão, da ascensão de forças nacionalistas radicais na Europa e do Nazismo. Uma cidade lotada de pessoas, longe do glamour que vemos normalmente, um mundo cinza que teme o que é diferente. Nesse mundo há o colorido das criaturas de Newt e de todos os outros seres mágicos que o cercam, como Tina Goldstein e sua irmã Queenie Goldstein, além de todos os bruxos que compõem a MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos da América). Newt tem sua mala mágica trocada pela do não-maj (como os bruxos americanos chamam os trouxas) Jacob Kowalski, que é mordido por umas das criaturas de Newt. Tina, uma ex-auror da MACUSA, prende Newt em uma tentativa de ganhar sua posição de volta, mas há problemas maiores para serem resolvidos pelo Congresso Mágico e ela se une a ele na busca por Jacob. Sem dar spoilers da história, por fim Newt e Tina acabam descobrindo que a busca pelos animais fugitivos do magozoológo se cruza com os problemas que o Congresso Mágico vem enfrentando em relação à um ser maligno chamado Obscurial, algo que o próprio Newt precisou lidar durante uma viagem pela África.

J. K. nos apresenta uma história com várias camadas, uma onde vemos Newt lidar com seus animais fugitivos e fazer novas amizades, algo que não parece muito comum para ele. Outra onde assistimos o Congresso Mágico se preparar para um terrível mal que ronda o universo mágico por causa da ambição do Mago Gellert Grindelwald, que passou a usar magia negra e assustar o mundo todo. Além de uma terceira camada que fala sobre aceitação, sobre temer o que é diferente, entre ambos os mundos. Do lado dos não-majs há a radical Mary Lou Barebone, que cria crianças órfãs que podem ou não serem bruxas, obrigando-as a suprimir seus poderes. Do lado mágico, há o próprio Congresso Mágico, presidido por Seraphina Picquery, que não aceita que nenhum não-maj saiba da existência dos bruxos. Discussão muito atual, em tempos que os poderes conservadores tomam conta do mundo real, com demonstrações de intolerância explícitas e criando uma onda de medo por aqueles que são diferentes e não se enquadram às normas impostas pelos mais radicais.

Além de nos levar de volta ao mundo mágico de J. K. Rowling, Animais Fantásticos tem outro enorme trunfo, nos apresentar e fazer apaixonar por novos personagens. Newt Scamander, interpretado por Eddie Redmayne, é, como já afirmei acima, adorável. Tímido e introspectivo, se mostra muito à vontade entre os animais, mas nem um pouco entre os humanos. O não-maj, Jacob, consegue quebrar um pouco essa barreira, além de Tina e sua irmã Queenie. Tina Goldstein é a bruxa burocrata que quer ter sua posição de prestígio, dentro do Congresso Mágico, de volta. Interpretada por Katherine Waterston, ela é tão fechada quanto Newt e, talvez, seja essa razão pela qual eles se aproximam. Queenie Goldstein é o oposto da irmã, extrovertida e muito alegre, tem o poder de ler mentes e usa seu poder sem muito pudor, o que acaba lhe dando um charme especial. Interpretada por Alison Sudol, Queenie tem uma sensualidade inerente que não é agressiva. Mas é Jacob Kowalski que nos representa nesse filme, ele é o não-maj que não curte muito a sua vida cotidiana, em um emprego horrível numa fábrica. Jacob sonha em abrir uma padaria e viver de assar coisas gostosas para alegrar o mundo, seu caminho cruza com o de Newt e ele é levado para esse mundo mágico, onde conhece a fofa Queenie. Vivido por Dan Fogler, Jacob tem um vislumbre de quão maravilhosa a vida pode ser e é muito difícil voltar a seu dia a dia cinza novamente. Jacob é a perfeita representação de todos nós. Também merecem destaque, Carmem Ejogo, como a Presidente Picquery, Colin Farrell como o Alto Auror Percival Graves e Ezra Miller como uma das crianças de Barebone, Credence.

Com uma trilha sonora perfeita para ambientar seu filme na década de 1920 e um cenário muito fiel à Nova York da mesma época, mais uma vez a Senhora Rowling nos arrebata com sua imaginação e capacidade para nos envolver em suas histórias. 133 minutos parece pouco para esse retorno ao seu mundo mágico, mas é acalentador saber que ele é só o início e que ainda há muitas aventuras e magia em nosso futuro por essa jornada com Newt Scamander.

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