Aplicando lógicas

 

A primeira palavra é sempre a mais difícil, depois que a gente começa, flui.

Recentemente, durante um almoço muito especial com um amigo querido, ele me disse que a gente passa muito tempo ali tentando segurar a represa, desesperado para não vê-la ruir, e, às vezes, quando ela rompe e nos carrega junto é justamente quando pode haver o nascimento de algo único e incrível. É aquela balançada que todos nós precisamos de vez em quando e que, nem sempre, impedir a queda é o mais sábio.

Olha, eu sei que ele estava falando da vida, do universo e tudo mais, e obviamente tenho refletido muito sobre isso, mas o que eu quero dizer pra vocês sobre isso é que eu peguei essa lógica e a apliquei na escrita. Eu tenho alguns projetos em andamento e tenho lutado com o tom de um, a história de outro e o que eu percebi é que tenho feito exatamente como no exemplo do meu amigo: tô desesperadamente tentando impedir que a represa exploda.

O problema de tentar controlar um universo enquanto ele está sendo criado por medo de fazer besteira é que você limita e muito a capacidade de algo lindo e único nascer de uma tentativa, que porventura você ache que não tenha dado certo. E apesar de isso ser óbvio para todo escritor, porque estamos acostumados a nos surpreender no ato da escrita quando nos deixamos levar, aparentemente, o período pelo qual estou passando esteve me cegando para tudo isso.

Surgiu um terceiro e improvável projeto, pelo qual estou perdidamente apaixonada, que, ainda assim, apenas engatinhava há apenas algumas semanas e muito lentamente (eu preciso ser muito mais ágil!). E embora o conselho do meu querido amigo martelasse com força na minha mente, o prego não fincava. Foi preciso um outro amigo, também muito querido, me dizer o que eu mesma estou cansada de falar nos lugares que vou, pra todo mundo que se propõe a ouvir, que, enquanto eu estivesse no processo de criação da história nova, eu não deveria pensar muito, nem lapidar, nem me preocupar com nada. Eu precisava apenas produzir.

Ora bolas! Quando você escuta um conselho desses você não para e pensa: “Pô, sério? Eu sei disso, cara!”? Mas não sabe nada, essa é a verdade! Não de forma consciente, senão esses conselhos nem chegariam até você. Bem verdade que às vezes a gente precisa escutar o óbvio, vai! <3

Eu tenho uma amiga que sabe estruturar uma história, os personagens, escreve o outline, traça até a espinha dorsal do livro inteiro, mas não consegue de jeito nenhum avançar, porque revisa cada palavra, cada parágrafo e cada trecho mil vezes assim que o escreve. Nesse caso, não é a pressa que é inimiga da perfeição, é a perfeição que é inimiga da criação.

Bem, eu não sou de ficar revisando o que escrevo assim que termino, muito pelo contrário, então, agora só me resta saber se finalmente (fui bem lenta para ser sincera) a minha represa estourou e se está neste momento me carregando para águas ainda mais profundas e desconhecidas. Fico pensando o que de lindo e único poderá nascer disso tudo e se isso é realmente provável. Acho que, só pela possibilidade, já vale a experiência.

Em outras palavras, eu poderia ter resumido essa coluna em apenas uma hashtag: #sejoga, mas aí eu não pago minhas contas. Vocês entendem.

#Fui

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