Ariel – Sylvia Plath

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“A notoriedade de Ariel advinha de ter sido o manuscrito deixado sobre sua escrivaninha quando ela morreu, em vez de ser simplesmente um manuscrito extraordinário” destaca Frieda Hughes, filha de Sylvia Plath, em sua introdução à edição restaurada de Ariel, publicada originalmente em 2004 e traduzida no Brasil por Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo para a editora Verus. Considerando toda a construção mítica que se fez ao redor de Plath e sua morte, não se pode dizer que Hughes esteja errada.

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A coletânea de poemas Ariel foi publicada pela primeira vez em 1965, dois anos após o suicídio de Plath. Ela estava se separando do marido, o também poeta Ted Hughes, depois de descobrir um caso extraconjugal dele. Em seus poemas, ela traz a público diversas questões pessoais, como os problemas de seu casamento, sua constante luta contra o transtorno mental, seu ressentimento por Hughes e sua dificuldade em superar a morte prematura do pai. Após sua morte, foi alçada à categoria de ícone feminista, cujo brilhantismo foi aniquilado antes do tempo pela opressão patriarcal. Hughes, tido pelo público como seu algoz, foi publicamente criticado e midiaticamente perseguido pelos admiradores da autora até a morte deste. Na lápide da poeta, consta o nome “Sylvia Plath Hughes” porém não é incomum encontrar seu sobrenome de casada riscado.

O manuscrito contendo quarenta poemas cuidadosamente organizados foi encontrado em uma pasta preta sobre a escrivaninha da poeta no dia em que morreu. Ariel estava pronto para publicação, porém Hughes modificou consideravelmente a organização da coletânea, excluindo 13 poemas que considerou particularmente agressivos ou ofensivos para pessoas que ainda estavam vivas, e incluindo outros no lugar.

Na sequência de Hughes, os poemas de Ariel são marcados por um desgaste passional, por uma energia vital consumida no processo criativo levando à auto-aniquilação. Há um tom de resignação, sugerindo a inevitabilidade do suicídio de Plath, e um excessivo enfoque no término do relacionamento. A organização original da poeta, no entanto, lida com uma série de outras questões e sentimentos além da crise em seu casamento, trazendo uma mensagem de renovação e recomeço: inicia com a palavra “amor” no poema “Canção da manhã” e finaliza com “primavera” em “Hibernando”. A própria Plath declarou em entrevista à BBC que imaginava Ariel como um sintoma de seu renascimento.

Plath estava plenamente consciente da qualidade excepcional do que estava produzindo no que seriam seus últimos anos. Mesmo antes do fim de seu casamento, sua poesia já adquiria a voz potente carregada de urgência que marcaria os poemas de Ariel. Nesta coletânea estão alguns de seus trabalhos mais extraordinários, como o poema título que descreve o ritmo acelerado e a experiência quase transcendental de uma cavalgada montando a égua Ariel, a “leoa de Deus”. Ou o brutal “Papai” em que o eu lírico disseca seus conflitos mal-resolvidos com a figura paterna/masculina. Ou o quase profético Lady Lazarus, que parece descrever com perfeição o destino póstumo da própria poeta: uma mulher que renasce após a morte num espetáculo público, saída das cinzas e devorando homens como ar.

Nesta edição restaurada e bilíngue vemos pela primeira vez a coletânea Ariel tal qual foi idealizada por sua autora. A edição traz também o fac-símile do manuscrito original, que permitem acompanhar o processo criativo de Plath. Traduzir poemas não é tarefa fácil e inevitavelmente o ritmo, as rimas, aliterações e jogos de palavra muitas vezes se perdem. Mas Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo fazem um trabalho excepcional mantendo a essência da poesia de Plath e transmitindo com maestria o turbilhão de emoções que transborda de cada verso.

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