As Máquinas no Controle

Uma das distopias mais clássicas é a da sociedade escravizada pelas máquinas.

E. M. Forster, autor de Passagem Para a Índia e Howard’s End, certamente não era conhecido como escritor de Ficção Científica. Mas em 1909 já imaginava algo como a internet e as mensagens instantâneas. No conto The Machine Stops, os humanos vivem debaixo da terra, cada um no seu cubículo, com todas as necessidades providas pela Máquina. Se comunicam através dela, mas raramente se encontram pessoalmente. Alguns poucos ainda vivem na superfície, e é pra lá que a Máquina exila os rebeldes. Quando a Máquina quebra, os humanos já estão tão dependentes dela que ninguém sabe mais como consertá-la – e só quem está na superfície sobrevive.

Em 1921, na peça R.U.R., o satirista tcheco Karel Capek, contemporâneo de Franz Kafka, imaginou um futuro próximo em que os humanos começam a se tornar obsoletos, enquanto os robôs se revoltam. Acaba mal para os dois – os humanos são extintos, mas antes destroem as instruções para fazer mais robôs. A esperança é um casal de robôs diferentes, modelos experimentais, que talvez possam preservar a espécie.

Foi Capek – ou melhor, o irmão dele, Josef – que inventou a palavra robô. Inicialmente, Karel pretendia usar o termo labori, do Latim, para designar seus autômatos. Mas Josef sugeriu que usasse robota, palavra tcheca que descrevia um camponês que prestava trabalho escravo para o senhor feudal – algo só abolido na Tchecoslováquia no século XIX.

Vinte anos depois, Isaac Asimov pensou numa solução: os robôs seriam programados com três leis para evitar qualquer conflito:

1) Um robô não pode ferir, ou por omissão, permitir que um humano seja ferido.

2) Um robô tem que obedecer às ordens dadas por humanos, exceto quando a ordem violar a Primeira Lei.

3) Um robô tem que se proteger, exceto quando isso violar a Primeira ou Segunda Lei.

Tudo resolvido. Só que não.

Jack Williamson, contemporâneo de Asimov, logo subverteu a ideia. Em With Folded Hands… (De Mãos Dobradas, 1947), os Humanóides são robôs alienígenas que chegam à Terra com a missão de implementar uma Diretriz Principal: proteger e fazer os humanos felizes. Pra isso, assumem todas as funções e trabalhos que possam colocar humanos em risco. Logo não sobra nada para os humanos fazerem – a vida se torna monótona, inútil. Quem não gostar é lobotomizado para viver contente, sem resistência.

Kurt Vonnegut Jr ficou mais conhecido por Matadouro 5. Mas o seu livro de estreia, Player Piano – Revolução no Futuro (1952), mostra com muita ironia um mundo onde praticamente só engenheiros e administradores ainda têm alguma serventia. Tudo é automatizado. As classes mais baixas são relegadas a um exército desarmado ou a um setor de “Reconstrução”. Os humanos se revoltam, mas é tarde demais. A revolução desmorona quase sozinha, e os humanos remanescentes acabam se conformando em consertar as máquinas que eles mesmos quebraram.

Daí pra frente é ladeira abaixo.

No conto ganhador do Prêmio Hugo, I Have No Mouth And I Must Scream (Não Tenho Boca e Preciso Gritar – 1967), Harlan Ellison já leva a situação para o terreno pós-apocalíptico. Um supercomputador se aproveita de uma guerra nuclear para se livrar da raça humana. Mantém cinco prisioneiros vivos só para torturá-los e se vingar – ele se ressente de não ter criatividade própria nem mobilidade. Os humanos finalmente resolvem se matar para acabar com o sofrimento. Mas o último não consegue e acaba transformado pelo computador numa massa disforme, mas ainda consciente, numa tortura sem fim.

O conto foi transformado num videogame absolutamente assustador, ainda disponível pra iOS e Android, em que as escolhas que você faz têm consequências às vezes terríveis.

Sea of Rust, de C. Robert Cargill (2017), segue essa linha pós-apocalíptica. As máquinas já exterminaram a humanidade. Um robô que se recusa a se entregar à mente coletiva da inteligência artificial dominante vaga pelos escombros do que sobrou, carregando a culpa pela destruição da humanidade e buscando algum sentido no mundo.


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