As vidas extraordinárias de Mary Wollstonecraft e sua filha Mary Shelley

No último dia 27, comemorou-se o aniversário de 160 anos do nascimento de Mary Wollstonecraft, autora de uma das primeiras e mais célebres obras de filosofia feminista: Reivindicação dos Direitos da Mulher. Talvez você não saiba, mas Wollstonecraft foi mãe de uma outra escritora tão ou mais famosa: Mary Shelley, autora de Frankenstein. Por isso, em uma comemoração atrasada, resolvi falar aqui hoje de Romantic Outlaws: The Extraordinary Lives of Mary Wollstonecraft and Her Daughter Mary Shelley, da americana Charlotte Gordon. O livro foi publicado em 2015 pela Random House e ainda não tem tradução para o português.

Para quem acompanha essa coluna, o meu amor por biografias não é novidade. Mas Romantic Outlaws é de longe a minha favorita. Existe uma enxurrada de material já escrito sobre a vida e a obra de ambas as Marys – o que não é de se espantar quando a gente considera que tanto a mãe quanto a filha chocaram a sociedade britânica dos séculos XVIII e XIX respectivamente. Mesmo assim, Gordon consegue inovar entrelaçando as vidas das duas em capítulos alternados, revelando como uma se tornou o espelho da outra de uma forma muito mais carregada de nuances do que se poderia supor.

Apesar de terem convivido por apenas 12 dias (Wollstonecraft morreu de infecção puerperal logo após o nascimento da filha), o legado e a idealização da mãe revolucionária moldaram as expectativas que Shelley tinha sobre si e a forma como ela se relacionava com o mundo. A própria epígrafe do livro traz uma citação que ilustra isso: “A memória da minha mãe sempre foi o orgulho e a alegria da minha vida” (Mary Shelley).
Além disso, as histórias de vida das duas apresentam muitos pontos em comum, um paralelismo que Gordon soube aproveitar muito bem na estrutura de seu livro. Ambas cresceram em ambientes hostis, ambas deixaram esses ambientes na primeira oportunidade, ambas viveram relacionamentos escandalosos para a época, ambas fizeram seu nome através da escrita.

Os contrastes também são ressaltados: enquanto Wollstonecraft vivia uma existência livre e boêmia, discutindo com filósofos renomados de sua época e aproveitando ao máximo sua vida social, Shelley, com a mesma idade, já era a senhora de uma família de tamanho considerável, precisando conciliar sua carreira literária com afazeres domésticos e necessidades de seu marido, filhos e irmã adotiva durante os anos que o grupo passou perambulando pela Europa continental.

É interessante o destaque dado por Gordon às atividades de vida diária e preocupações consideradas tipicamente femininas. Quando se fala em grandes nomes da literatura, é fácil esquecer que essas mulheres não desfrutavam dos mesmos luxos e facilidades que seus colegas do gênero masculino. Uma mulher sem acesso a educação formal e que precisava cuidar de crianças pequenas, gerenciar o funcionamento de uma casa, entreter os convidados do marido e que ainda assim conseguia escrever uma obra digna de publicação (numa época em que qualquer coisa escrita por uma mulher seria avaliada com dez vezes mais rigor do que algo produzido por um homem) tem muito mais mérito do que qualquer autor homem.

A perspectiva feminista com que Gordon revela as histórias dessas duas mulheres com uma prosa fácil, que mais parece uma narração de romance, faz com que as 672 páginas dessa biografia dupla passem voando.

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