Bartleby, o Escrivão

(“Preferia não fazê-lo”)

Herman Melville é daqueles autores que você se sente pressionado a ter na estante. Quem nunca foi à livraria e ficou namorando Moby Dick? Eu várias vezes. Inclusive num dia de promoções loucas o encontrei pela metade do preço, fiquei ainda mais louca e comprei. Não li até hoje. É um dos clássicos que tenho e nunca li. Me envergonho, não nego, leio quando puder. Porém, quando conheci a proposta da narrativa de “Bartleby, o Escrivão”, do autor, fiquei muitíssimo curiosa e não consegui deixar pra lá em quanto não o li.

O conto, publicado anonimamente em 1853, é bem curto, menos de cem páginas, a leitura é rápida, mas, sem medo de exagerar, a reflexão é daquelas que fica para sempre. A história é bem simples e bastante factível, a não ser pelo fato de que se fossemos Bartleby provavelmente estaríamos sem emprego. Será que ele se importaria? Acredito que não, afinal, ele preferia não fazê-lo. O narrador, que nos apresenta toda a história de forma simples, mas bastante angustiada e até inquieta, é um advogado de sucesso de Wall Street, que contrata Bartleby para trabalhar em seu escritório. O funcionário inicialmente tão prestativo, que passa seus dias de frente para parede, um belo dia responde ao chefe, após uma demanda, com a simples, porém desconcertante, frase “Preferia não fazê-lo”. Dali em diante, nega-se a fazer qualquer coisa que lhe é pedido.

Poderíamos cometer tal desacato contra o mundo capitalista? Simplesmente atender de verdade aos nossos desejos e, ao sermos perguntados “você poderia realizar tal tarefa?”, responder: “poderia, mas prefiro não fazê-la”. Quem nunca teve vontade? Bartleby desafia toda a nossa criação em sociedade, que nos ensina a ser subordinados, respeitar hierarquias, “dar valor” aos nossos empregos. A reflexão vem fácil: de que somos feitos? Atrás de que corremos atrás todos os dias? Que vida é essa de olhar paredes e obedecer pessoas o dia inteiro? Somos mesmo obrigados a responder todo mundo da forma que os outros esperam, ou poderíamos dar vazão ao que realmente desejamos?

O narrador se torna obcecado pela apatia e falta de respostas de Bartleby e, contra todas as probabilidades, não o demite, porque quer descobrir a sua origem e motivações. Sem sucesso, o narrador prossegue angustiado e sem história, pois se não há comunicação, não há o que contar. “Bartleby, o escrivão”, lançamento da José Olympio, é um livro provocante, com muitas questões e poucas ou quase nenhuma resposta, mas muitas teorias e reflexões, curto e grosso, daqueles que fica na sua cabeça. Há tempos não conheço um personagem que me deixasse com tantas pulgas atrás da orelha quanto Bartleby, mas, se ele se nega a responder, será que posso dizer que realmente o conheci?

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