Becky Chambers

A americana Becky Chambers é mais um exemplo de como tem gente talentosa por aí esperando uma brecha pra provar o seu talento. Filha e neta de cientistas espaciais, recorreu ao crowdfunding para publicar o primeiro romance. Foi indicada a vários prêmios literários e acabou contratada por uma grande editora. Veio a continuação, e mais uma leva de indicações. Aqui no Brasil, foi a Darkside que publicou os dois livros: a longa viagem a um pequeno planeta hostil, e a vida compartilhada em uma admirável órbita fechada (tradução: Flora Pinheiro – assim mesmo, tudo em caixa baixa).

No primeiro volume, acompanhamos as aventuras da tripulação da Andarilha, uma nave que viaja para instalar os portais que permitem as viagens de um ponto a outro da galáxia. Confesso que no começo achei o livro leve demais. Todos os conflitos ao longo do caminho são resolvidos na base do diálogo, mesmo algumas situações de choque cultural entre espécies e raças diferentes. Todos são tão tolerantes, compreensivos e politicamente corretos… parecia uma versão açucarada de Jornada Nas Estrelas – A Nova Geração. Mas a verdade é que é um livro extremamente agradável de ler, que fica na sua cabeça, com personagens que a gente quer logo reencontrar.

No segundo, a coisa muda um pouco, com um clima mais tenso e sombrio. Acompanhamos uma personagem que deixa a tripulação: a inteligência artificial da Andarilha ganha corpo físico, e o foco passa a ser mais centrado nela e na busca pela identidade e pelo próprio direito à existência.

O terceiro volume acaba de ser publicado lá fora, e está prometido pra breve aqui pela Darkside. Record of a spaceborn few se passa na Frota do Êxodo, naves que partiram da Terra quando nosso planeta ficou esgotado, sem condições de vida. Cada nave é uma gigantesca cidade fechada, em que a conservação e reaproveitamento de recursos é vital. Apesar de já terem encontrado outras espécies, outros planetas, a maioria prefere seguir vivendo na frota. A autora nos apresenta várias famílias – todas gente comum, convivendo com problemas cotidianos. E tem um cientista alienígena que vem para estudar a vida na frota.

Confesso que no primeiro terço do livro, quando comecei a pensar em como resumiria a história pra essa resenha, tive um problema: não acontece muita coisa. As personagens têm seus problemas – conseguir emprego, lidar com filhos adolescentes rebeldes, etc. Mas não existe um Grande Problema a ser resolvido, nenhuma situação de vida ou morte. Mais pra frente entendi que é esse o objetivo: falar do que seria a vida normal numa frota dessas. Não tem heróis, capitães espaciais, aventuras – sobreviver um dia após o outro é própria aventura.

Além disso, Becky Chambers aborda um tema fundamental: cidadania e responsabilidade social. A sociedade na Frota vive da colaboração entre todos. Não existe dinheiro, todos trocam o que produzem, e se revezam em tarefas mais desagradáveis como saneamento. Ar e água não chegam a faltar, mas só porque todos têm consciência de que não podem desperdiçar. Afinal, estão ali porque a raça humana já gastou um planeta inteiro…

Becky Chambers diz que agora vai escrever alguma coisa diferente pra variar um pouco, mas promete voltar em breve a esse universo.

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