Livros Resenhas

Calçada

Você, que está lendo essa resenha agora, já pensou em quantas pessoas moram na rua? Vamos além, já pensou na razão para elas estarem nessas condições subhumanas? Drogas? Sim, mas só? O ser humano não é tão simplório.

Privilegiada que sou, moradora da Zona Sul do Rio de Janeiro, quando trabalhei no jornal “O Povo” como repórter, vi e passei por muita coisa pesada. Foi complexo ver uma outra realidade no mesmo Estado onde eu morava, na mesma cidade, muitas vezes no mesmo bairro. Moramos todos juntos, perto, mas tão distantes em realidades. E é sobre isso, sobre enxergar essas pessoas que trata o livro “Calçada”, de Felipe Garcia e Jandir Júnior.

Soube de “Calçada” porque alguém no Clube do Livro, há alguns anos, falou sobre o projeto e eu me interessei. Pedi para receber um exemplar e, quando ele chegou na minha caixa postal, saiu de lá e entrou na minha eterna pilha de leitura. Hoje, 11 de janeiro de 2020, resolvi pegar para ler. Li, lembrei do que vivi nos meus dias de repórter, lembrei do que vejo todo dia, no meu caminho para o trabalho e de volta para casa: tanta gente invisível nas ruas.

Nós, privilegiados – e se você está lendo essa resenha considere-se privilegiado também -, somos moldados a acreditar que quem mora na rua é vagabundo, drogado, criminoso, louco. Mas existe um mundo de razões para pessoas dormirem ao relento. E Felipe e Jandir contam várias dessas histórias.

“Calçada” surgiu da vontade deles de ajudarem pessoas. No início, foi a vontade de compartilhar a Ceia de Natal com alguém em situação de rua. Depois, o projeto cresceu, mais pessoas foram ajudadas e ouvidas. E são esses relatos que formaram “Calçada”. Dói o coração ler sobre pessoas que se meocionaram só por terem sido ouvidas, pois fazia tempo desde que alguém parava para conversar com eles. O que é normal e corriqueiro para nós, como beber água, escovar os dentes, conversar com alguém, olhar nos olhos de outra pessoa, é quase inexistente para esses moradores de rua. Isso é muito triste, gente.

“Calçada” não é sobre fazer moradores de rua lerem, é sobre levar a história deles para leitores.

Um pouquinho de cada história é possível conferir nos relatos de Felipe e Jandir: pessoas que deixaram suas casas por causa de vício, pessoas que perderam a noção da realidade e vivem uma fantasia (ou vivem uma fantasia para suportar a realidade), perdas, sacrifícios. Humanidade, gente.

Tem uma passagem no livro que traz a reflexão de um dos autores sobre como, em um período de três anos, a vida dele tinha mudado (ele tinha conseguido mudar de emprego, voltado para a faculdade) e como o morador de rua que ele conhecia tinha estagnado, com aspecto de quem poderia falecer a qualquer momento. Corta o coração não somente porque é triste e real, mas porque acontece ali, na nossa esquina.

Leiam esse livro, que só tem 119 páginas, mas carrega um mundo de histórias e mais: carrega a vontade de querer ajudar. Com tanta coisa ruim acontecendo ao nosso redor, sejamos um pouco da mudança.

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