Capitã Marvel – O filme

Em um momento do filme, Carol Danvers enfrenta um dos vilões, que quer que ela mostre a extensão de seu poder a ele. Sem pensar duas vezes ela o responde: “Eu não preciso provar nada”. Essa cena resume muito bem a saga que é ser mulher. Curiosamente a Capitã Marvel precisou mostrar seu “poder” antes mesmo do filme estrear, porque recebeu notas baixas no site Rotten Tomatoes de homens nerds enfurecidos. A atriz Brie Larson apenas comentou que gostaria de ver mais diversidade entre os jornalistas que a entrevistavam durante as junkets do filme. Isso foi o suficiente para atiçar a ira daqueles que já estavam chateados de não se verem representados em um filme de super-heróis, que já os representam em 95% das vezes.

Mas vamos ao filme, que é muito mais interessante.

Capitã Marvel (Captain Marvel, EUA, 2019) tem muitos pontos positivos, além do óbvio: mostrar uma super-heroína. A Carol Danvers de Brie Larson é de fácil empatia, ela é moleca na dose certa e muito determinada. A atriz parece se divertir no papel e ainda dar a carga emocional que ele necessita, sem exageros. Outro ponto positivo é o filme não ser linear, ele parte de uma história começada e nos convida a desvendar como aqueles personagens chegaram ali de uma forma envolvente. Adicionar Nick Fury (Samuel L. Jackson) à equação ajuda bastante a tornar essa descoberta bem mais divertida. Aliás, outro acerto do filme é ter Fury como um companheiro de Danvers e não um mentor, ou o cara que “traduz” o nosso mundo pra ela. Há uma troca de conhecimento entre eles que faz a gente querer mais filmes da dupla Capitã Marvel e Nick Fury. A química entre L. Jackson e Larson é incrível e não de uma forma romântica, mas sim de cumplicidade e amizade. E falando de amizade, acertadíssimo colocarem Maria Rambeau (Lashana Lynch) no filme, o laço entre melhores amigas sem dúvida é importantíssimo para uma mulher. Rambeau é o alicerce de Danvers, é quem a traz pra realidade e a apoia sem julgar. É a amiga que todas nós temos, que todas nós recorremos nos momentos difíceis e que nos faz seguir em frente, mostrando que vai nos amparar sempre que seguir em frente for muito difícil. A relação entre as duas no filme é muito verdadeira e de fácil identificação.  

A trama do filme é bem construída, com reviravoltas no tempo certo, levantando mais uma vez a questão sobre quem é o verdadeiro vilão. Novamente um filme da Marvel vai além de contar a história de seu herói e se aprofunda, da mesma forma, na história de fundo com alegorias sobre o mundo em que vivemos. Enquanto Carol Danvers tenta descobrir quem ela realmente é, também percebe que nem tudo é exatamente como ela acreditava. Como uma pessoa que sempre foi diminuída, desacreditada e tolhida, por ser mulher, é mais fácil para ela entender as entrelinhas. O filme começa meio preocupado demais com os efeitos especiais e lutas, em mostrar personagens e introduzir easter eggs. Mas quando chega ao segundo ato, quando Carol chega na Terra em 1995, cai dentro de uma loja Blockbuster e começam as referências, sutis mas muito bem trabalhadas, da cultura pop da época, é que o filme mostra sua força. Dali o filme segue em uma espiral pra cima, culminando em vários momentos de desconforto para aqueles nerds que gritaram contra o filme e de puro deleite para o público feminino que se vê completamente representado na tela.

Vale destacar que Capitã Marvel é dirigido por uma mulher, Anna Boden, que trabalha sempre em dupla com seu marido, Ryan Fleck. O roteiro também é assinado por uma mulher, Geneva Robertson-Dworet, do argumento de Nicole Perlman e Meg LeFauve. Todas essas mulheres envolvidas no processo criativo do filme faz uma enorme diferença no produto final. Sua trilha sonora também chama atenção por ser composta em boa parte por grandes roqueiras dos anos 1990, com bandas como Garbage, Hole e No Doubt. Abrindo um parêntesis para o fato de que os anos 1990 também foi a década que as mulheres se destacaram no rock.

Esse é um filme de origem de personagem, mas dentro de uma saga que já acontece há mais de dez anos, que está perto de seu fim, mas que precisa introduzir essa última peça em seu universo. Não há dúvida nenhuma que há dez anos, nem o Pantera Negra e nem a Capitã Marvel ganhariam as produções que ganharam e talvez nem seriam tão relevantes dentro do universo cinematográfico da Marvel, simplesmente porque o mundo era diferente. Felizmente o mundo atualmente grita por diversidade, as minorias gritam por representatividade. É muito simbólico ver que tudo começou com o Homem de Ferro, um playboy, bon vivant, que lá atrás era encarado como o perfeito anti-herói e hoje é visto como um cara que precisa amadurecer. Agora, em 2019, é preciso ir além, é preciso mostrar que todos somos heróis, não importa a cor da pele ou o gênero. Capitã Marvel começa lento, parece que não vai conseguir chegar ao ponto que precisa chegar, mas ele não decepciona. O caminho entre Vers, Carol Danvers e Capitã Marvel é sinuoso. Ela, assim como todas as mulheres do mundo, precisa entender sua força, acreditar que ela existe e provar apenas a si mesma que seu poder é infinito.  

Adendo: Não dá para terminar esse texto sem comentar sobre o melhor personagem do filme, Goose, o gato.  

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