Castello

Lira Neto me conquistou com a trilogia sobre Getúlio Vargas. Quando vi nas livrarias no final do ano a biografia “Castello – Marcha para a Ditadura” fui logo comprando e ela acabou sendo a minha leitura de virada do ano. Conhecer mais e mais sobre o nosso passado como país e as figuras que tomaram decisões que nos trouxeram até aqui é sempre importante independente da sua visão sobre elas. Tenho que dizer que passar a virada do ano lendo sobre ditadura não foi das melhores escolhas em um período em que, essencialmente, falamos de esperança e desejamos boas coisas para o ano vindouro.

Humberto de Alencar Castello Branco foi o primeiro presidente da ditadura militar que aprisionou o país com 25 anos. Essa era, basicamente, a única informação que tinha sobre ele antes de começar a ler a biografia. O livro me deu uma outra perspectiva sobre Castello e ao mesmo tempo trouxe um desconforto enorme. Ler o livro e o jornal diário traz paralelos demais e me deu a sensação de estar vendo uma história sendo reeditada com todas as diferenças que a distancia no tempo impõe.

Ler sobre a vida de quem quer que seja transforma a pessoa em algo mais do que simplesmente pelo o que ela é famosa. Passa a ter todas as contradições de qualquer pessoa. Não fazia ideia de que ele tinha participado em campo da campanha brasileira na Segunda Guerra Mundial e que voltou com os pracinhas como um herói. Chega a ser engraçado como as escolhas que fez contradizem o que ele foi lutar contra na Itália.

Ler os textos de Castello durante as diversas crises institucionais que viveu é quase inacreditável. Ele escrevia contra a ditadura Vargas, contra a interferência militar no executivo. Em defesa dele quando se tornou presidente ele abandonou a farda, mas essa é a única defesa que consigo fazer.

O que mais me chamou atenção ao longo da leitura tem pouco a ver com Castello em si. Foi ver como alguém tão contrário a movimento ditatoriais se transformou em um conspirador que derrubou um governo e instalou uma ditadura. Como alguém que defendia a não intervenção acreditou que a solução para o país era expurgar as pessoas que ele acreditava ser a essência de todos os problemas da nação? A atitude “eu sei o que é bom para o país” e ir lá e eliminar quem quer que discordasse dele. Não é isso que estamos, com as devidas proporções, vivendo? A incapacidade de ouvir ou debater com o diferente? A ideia, cada vez mais difundida, de que pessoas com certas crenças tem que ser eliminadas? Só com essa eliminação o país é capaz de seguir o bom caminho, o que quer que seja esse bom caminho.

Castello chegou ao poder e uma vez lá abriu caminho para o pior de todos os caminhos. Perdeu as batalhas para a ala mais radical entre os golpistas. Na disputa com Costa e Silva perdeu todas e ao mesmo tempo limpou o terreno para os horrores que os anos subsequentes foram implementados. O medo e o horror de ver o país governado por um civil que ele não aprovava, no caso Carlos Lacerda ou Juscelino Kubitschek, fez com que fizesse tudo o que condenava quando mais jovem e estruturasse uma ditadura sanguinária que atrasou o país em décadas, deixou cicatrizes que até hoje não foram curadas e que, inacreditavelmente, volta a ser enaltecida.

Castello Branco não é assim um personagem tão interessante, mas sua vida levanta questões importantes e, mais, conhecer os personagens que construíram e ditaram os caminhos do país é sempre importante, na verdade, essencial para que não repitamos os mesmo erros.   

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