Cinquenta tons de polêmica

Se você não vive embaixo de uma pedra, sabe que a trilogia da britânica E. L. James, “Cinquenta Tons de Cinza”, está dando o que falar. São três livros – o último ainda não foi lançado no Brasil – que estão movimentando relacionamentos, opiniões e sex-shops como se não houvesse amanhã.

A trama é simples: o milionário Christian Grey teve a infância e a adolescência complicada, que envolveu uma mãe prostituta e drogada que morreu aos seus pés e uma mulher mais velha que o iniciou sexualmente na base da pancada. A família de Christian é perfeita, mas ele é uma pessoa fechada, cheia de manias e complexos, mas um excelente homem de negócios e cheio de mulheres suspirando por onde ele passa. A vida vai bem para Grey, até a universitária virginal Anastasia Steele aparecer e literalmente cair de cara no chão em sua primeira reunião com ele. Pronto, é psicose ao primeiro tombo!

No primeiro livro rola aquele amor perigoso já que ela é inocente em todas as maneiras possíveis e ele é totalmente o Lobo Mau atrás da Chapeuzinho. Aí começa a polêmica para a maioria das pessoas (não pra mim): ele é Dominante em um relacionamento sadomasoquista. Ou seja, ele entrega um contrato para ela para deixar claro os limites, mas sim, ele gosta de sexo ao extremo, com tapas e chicotes e o que mais. Ela está tão apaixonada que concorda (mas não assina. Tudo é explicado no livro). Os dois começam, então, um relacionamento que se resume muito em ele controlar até onde ela vai (mesmo fora do quarto) e ela se omitir para satisfazer suas vontades (mesmo fora do quarto). Isso acontece até o final do livro, que tem um gancho excelente o suficiente para me fazer ler o segundo. É isso aí, trama morna, cenas de sexo quentes, mas a autora é ótima de gancho. Embarquemos em Cinquenta Tons Mais Escuros, shall we?

No segundo livro, o começo prende bastante a atenção, mas ela se perde momentaneamente quando os dois passam a se pegar novamente. Aqui começa a verdadeira história do livro: uma mulher que quer “curar” o homem que ama. Não sei se concordo, mas entendo de onde vem e quero saber para onde vai. Acho que é por isso que, mesmo não gostando, li até o final os três livros, embora, na minha cabeça, são todos um grande livro que poderia ter sido editado. Acho que essa coisa de “comigo vai ser diferente” e “ele vai mudar por mim” integra o inconsciente coletivo de toda mulher. Concordando ou não com isso, faz parte da nossa “programação”. Abrace-a e siga em frente.

Continuando, o segundo livro traz um novo conflito que é interessante, mas, como no primeiro e como será no terceiro, é amadoramente explorado pela autora. Por isso que senti tanta falta de um editor ao ler a série. Mesmo sendo assim, o livro termina com outro bom gancho! Notem que não quero dar muitos spoilers! Entre o início e o fim, o que temos: personagens coadjuvantes bem fracos e mal explorados, um Grey que continua maluco, porém é coerente em sua loucura (Kuddos para a autora!), uma Ana que ora se ataca, ora deixa o cara fazer o que quer (boooo autora, booo) e muitas, mas muitas cenas picantes! Ah, claro e uma repetição infinita de: “minha deusa interior”, “você está revirando os olhos para mim?” e “não morda o seu lábio”. Chaaaaaaato. Uma coisa bacana: uma cena de ataque da Ana que deu vontade de aplaudir. E ponto final.

O que nos traz até Cinquenta Tons de Liberdade. Os melhores últimos capítulos de toda a série estão nesse livro e mostram como E. L. James poderia escrever bem se quisesse (ou precisasse). São coerentes e fazem qualquer leitora se derreter! Eu gostei bastante do final. E só. Mentira! Toda vez que Grey falava “Laters, baby” eu ria feito uma colegial sem graça. E só. Sim … só mesmo.

Ah, mencionei que esse livro começou como uma fan fiction de Crepúsculo? Se acho isso errado e ruim? Não. Se acho que o livro deveria ter sido editado de forma melhor? Fato que sim! A estrutura dos livros continua sendo como a de fics: a cada capítulo, cenas de sexo para caramba e um ápice. Isso acontece porque se escreve e se lê fics capítulo a capítulo, conforme são publicados. Ao amarrar tudo e colocar uma bela capa e chamar de livro, fica fraco e confuso. Editor fez MUITA falta!

Cinco pontos fracos da trilogia:

1 – É possível identificar direitinho quem é Rosalie, quem é Esme e etc na narrativa. Isso enfraquece a autora, pois não é uma quebra de vínculo com a fic.

2 – Repetição de situações e diálogos.

3 – Caracterização fraca e superficial de Ana e dos personagens coadjuvantes.

4 – Mal aproveitamento de conflitos (a ex-submissa de Christian, Sra. Robinson, Jose – que some do nada!)

5 – O maior de todos: confundir relacionamento BDSM com submissão e omissão do parceiro (fora do quarto).

Cinco pontos positivos da trilogia:

1 – Christian Grey é rico, lindo, mas completamente fucked up mesmo! Mas é coerente na sua “loucura”, o que é excelente.

2 – Cenas de sexo – no estilo baunilha ou não – de deixar qualquer um ofegante. Se o propósito do livro é “legitimar” a literatura erótica, missão cumprida!

3 – A expressão “Laters, baby”. Primeiramente soa errado e tosco, mas conforme é usada, torna-se marca registrada positiva para o livro. E é fofa e sexy!

4 – A figura da Sra. Robinson. Embora pudesse ser mais bem explorada, a ideia da personagem e o que ela traz de bagagem para Grey e Ana é interessante.

5 – Fora preconceito. Sabrina, Jessica, Bianca e tantas outras que povoam bancas de jornais estão acostumadas a tratar de erotismo, mas nunca foram vistas com bons olhos por leitores. A trilogia de E.L.James ajudou a mudar isso e a literatura erótica ganhou mais força na luta contra o preconceito.

Continuando … Sou contra E.L.James ganhar dinheiro pacas com esses livros? FATO que não! Pena que não sou eu! Se eu curti? Nope! O problema da trilogia para mim não é só o fato dela ser mal escrita, com personagens superficiais e trama fraca. Ok se fosse isso, porque sou da opinião que um livro pode não ser incrível para muitas pessoas e funcionar para várias outras. O meu problema com a trilogia se resume muito ao que acontece no terceiro livro (bem no início). A partir daqui vou escrever um spoiler. Leia por seu próprio risco.

SPOILER

Durante a lua de mel de Grey e Steele, ela faz um topless e ele fica atacado e com toda a razão! Ele é um homem famoso e ter a esposa exposta em uma revista de fofoca não seria bacana! Que o diga Kate Middleton! O problema para mim é o que ele faz por conta disso. Em mais um momento de sexo intenso com algemas e vendas, ele distribui chupões pelo corpo da esposa ao ponto de ela ser incapaz de colocar um biquíni durante o resto da lua de mel. Gente, COMO ASSIM?! Ficar zangado e discutir é uma coisa, mas isso é abuso, é errado! Achei um absurdo o que ele fez e o pior é que ela perdoa depois de duas piscadas dos belos olhos cinzentos dele. ME POUPE! Vamos brincar de ter um pouco de convicção e autoestima?

Fiquei com a mesma raiva (ok, um pouco mais agora) quando li a cena da Bella voltando para casa em Lua Nova após salvar Edward. Ele a deixou em depressão, o pai – Charlie, que eu ADORO! – segurou as pontas de todos os jeitos possíveis, e quando Edward aparece com Bella e Charlie se ataca, a moça solta um “para com isso pai”. OI? Você não tem amor próprio? Que você vai e deve perdoar o vampiro, CLARO, mas coloque-o no seu lugar primeiro!

O meu problema com a trilogia Cinquenta Tons de Cinza é que ela é ruim e pode passar uma visão errada para a mulherada. Por nenhum cara vale a pena se omitir, se machucar. Ever! Não importa se ele é rico, lindo e te faz ter orgasmo na sua primeira vez (ever, não somente com ele)! Fora isso, espero que a série coloque geral para ler muito mais e para se divertir entre quatro paredes (com responsabilidade). E Deus queira que o filme não seja terrível!

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11 comentários sobre “Cinquenta tons de polêmica

  1. Bem, belo post Frini.
    E devo dizer, passei muito mal lendo o livro. Achei bruto e muito estranho – pelo menos para mim que não tem costume de ler esse gênero. Apesar de já ter lido bastante livros de banca antigamente, mas esse livro me fez passar mal com a ideia de existir esses tipo de pessoa.
    Achei que a autora esqueceu de separar crepúsculo de sua obra o que não deu identidade, tipo o Grey é o Edward humano que tem fissura por sexo louco. E a Ana… Enfim.
    A ideia do livro surgir da fanfic tudo bem, mas na hora de podar o livro, a autora esqueceu de dar outras personalidades para diferenciar suas personagens.
    O livro está fazendo algumas mulheres se descabelarem por causa do sexo e eu nem acredito nisso, até porque não acho legal alguém abusando de outra nessas situações. Ninguém em sã consciência iria achar divertido. (Apesar de ter pessoas que amem, enfim.). Algumas coisas a gente acha lindo lendo, mas na vida real, é totalmente diferente.

    Beijos!!! @Juliana_Barnes

  2. Adorei a resenha.
    Honesta, clara e inteligente, sem preonceito.
    A mim, o que mais incomodou foi a questão da edição (confesso que só li as primeiras páginas mesmo, não deu pra ir além…).
    Achei interessante seu comentário a respeito da Bella, do Edward e do Charlie. Tb adoro o Charlie, mas ali, embora super estivesse do lado dele, entendi a postura da Bella e foi um dos poucos momentos em que achei a história coerente porque eu sempre vi essa questão da “alta baixa-estima” da Bella como decisiva para a história (sempre lembro do início, quando ela diz que é magrela e flácida e é supercheia de autoironias e críticas etc.). Ali achei que cabia (ainda que discorde da posição dela!!!).
    Enfim, eu queria que os números estratosféricos da venda dos livros da trilogia se convertessem em mais gente comprando (boa) literatura. E também queria que bons autores explorassem o erotismo. Não acho que sexo e boa literatura sejam coisas excludentes. Mas acho que a E.L. James faz parecer que sim.

  3. Frini, ainda não li a trilogia e nem sei se vou ler. Tenho muita implicância com esses livros que já chegam aqui inflados pelo marketing, independentemente do valor literário ou de conteúdo deles. Já cismo com o livro na hora. Mas quem sabe um dia eu me animo? Sua resenha está muito boa, bem detalhada e personalizada.
    Beijos

  4. Parabéns pela resenha, Frini! Agora sim consegui entender seu ponto de vista 🙂 Apenas queria ressaltar q existem vários tons (pun intended 🙂 de relacionamentos DOM/sub e q não são raros os casos em que essa dinâmica continua fora da cama. Aliás, o BDSM retratado em 50 Tons é bem leve e superficial, se comparado aos relacionamentos MASTER/slave por exemplo, e a autora foi bastante criticada pelos adeptos desse estilo de vida 🙂 Bjs!

  5. Eu li todos os livros todos mesmo e amei bem a algumas coisas meio absurda nos livros mais Okay. E eu fico puta da vida com a Anastácia por apanhar ou qualquer outra coisa e logo perdoar Christian em um piscar de olhos é ele falar em sexo pra ela que ela o perdoa em um estalar de dedos pra quem leu 50 tons de liberdade vai saber do que eu estou falando tipo ela conta que esta gravida e é humilhada pelo Christian e de repente o perdoa por SEXO… Ta chega de spoiles.
    Mais a história de amor dos dois é perfeitamente perfeita e a história de Christian quando criança toca o coração de qualquer um.
    Eu recomendo o livro sim e o filme apesar so filme ser meio bosta mais vale a pena ver o maravilhoso e perfeito Christian Grey e sua bunda maravilhosa na minha opinião é a única coisa boa do filme kkkkk mais os livros são muito bons eu recomendo.

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