Desconstruindo Una

Um livro/quadrinho que incomoda e precisa ser lido por todos. Agora.

Recebi uma mensagem da Editora Nemo dizendo que gostaria de me mandar um exemplar da graphic novel “Desconstruindo Una”.  A mensagem dizia que era sobre o abuso de mulheres e a importância do feminismo. Claro que topei na hora e eles me enviaram o exemplar.

Levei alguns dias lendo “Una” não porque é muito longo (embora não seja curto), mas porque o conteúdo é tão forte que é difícil digerir tão rápido. Ou melhor, não deve ser digerido rápido. Não deve ser digerido de jeito algum! Precisa se indigesto, angustiante e revoltar o leitor. E é assim que me senti durante a leitura e após virada a última página.

“Descontruindo Una” é contado em primeira pessoa – Una – que é como chama a autora. Busquei informações sobre ela na web, mas sua identidade é guardada. E, na boa, achei até melhor ser assim. Dessa forma, Una é única e todas ao mesmo tempo. Ela é uma narradora, uma vítima, uma sobrevivente que representa tantas mulheres que passaram ou estão passando por problemas com abuso sexual.

Una narra sua história de abuso em paralelo a onda de homicídio que ocorreu na Inglaterra entre 1970 e 1985, quando um assassino intitulado O Estripador de Yorkshire matou 13 mulheres. Todos os fatos narrados por Una são situados em notas e em uma bibliografia ao fim do livro.

O primeiro abuso sofrido aconteceu aos 10 anos. “Eu parecia uma menina de 10 anos em um vestido imenso, mas ele fingiu achar que eu era mais velha”, conta Una. E abuso e estupro ocorreram na vida de Una durante muitos, muitos anos, sendo que ela não conseguia falar sobre o caso, a família não entendia sua paranóia e depressão e basicamente ninguém queria lidar com o fato de que algo estava errado.

Paralelamente à luta interna de Una, mulheres estavam sendo mutiladas e mortas por um assassino em série que começou sua “carreira” matando prostitutas. Então a polícia não tinha dado tanta atenção até uma mulher “inocente” ser vítima. Por que prostitutas não merecem a mesma atenção? Por que crimes contra mulheres são sempre levados em conta a conduta da vítima, onde ela estava, o que estava vestindo, se era “recatada e do lar” ou não?

Abuso é algo que me revolta, mas é um crime. Ponto final. Esse julgamento de valor da vítima que “pessoas de bem”, que “autoridades” se sentem no direito de fazer me tiram do sério! É um absurdo! E não acontece só nas páginas de Una ou no passado, acontece na sua rua, no seu prédio, na sua escola, no seu trabalho, na NOSSA VIDA! Basta!

Em um momento, Una escreve o seguinte: “Ser explorado porque você é vulnerável não é a mesma coisa do que consentir”.

Quantas vezes você, leitora, não se sentiu assim? Não precisa ser estupro ou abuso sexual, pode ser uma troca de olhares indesejadas quando se está sozinho na balada, um gesto obsceno no ponto do ônibus, ou até mesmo um comentário desnecessário em uma reunião. São situações nas quais nos sentimos vulneráveis e não quer dizer que seja caminho aberto para fazerem o que quiserem conosco. NÃO! NÃO! E NÃO!

“Desconstruindo Una” narra a história de Una e de como ela cresceu com abusos de homens diferentes. Ao traçar o paralelo com a busca pelo assassino de Yorkshire, Una mostra como não dar atenção e valor às vítimas fez com que demorasse muito mais para ele ser preso. E essa demora levou a vida de mais mulheres no processo. Mulheres que poderiam estar vivas hoje se a preocupação dos envolvidos não fosse o que elas estavam usando na noite que foram atacadas, mas sim ouvir os relatos de quem sobreviveu aos ataques e tinham coragem o suficiente para falar o que notaram, desde sotaque até traços físicos. O desacreditar a vítima é um novo crime e infelizmente para esse não existe punição.

Una conta a sua história, a de um assassino, mas também mostra evidências em ambas que nós, mulheres, estamos cansadas de ver: machismo, julgamento de caráter, omissão. E exatamente por tudo isso e muito mais que “Desconstruindo Una” é uma leitura que dói e incomoda, mas que precisa ser feita, porque ignorância não é uma bênção!

E as ilustrações da graphic novel são tão impactantes quanto o texto. Não são repletas de detalhes ou cores, mas na sua simplicidade, mostram a inocência roubada, a privacidade invadida, o peso da culpa, da vergonha e das palavras que teimam em não se deixar liberar. É incrível e triste e perfeito para ilustrar a confissão, o pedido de “não deixe que isso se repita ou aconteça com você” que é Una.

“Desconstruindo Una” tem um trabalho gráfico sensacional e a tradução ficou por conta da ótima Carol Christo. No fim do livro, além das notas também existem números de auxílio a vítimas, inclusive números no Brasil. Por favor, leiam e comentem sobre o assunto com os outros. Para fazermos a nossa parte, o debate é indispensável! Estupro, abuso, machismo, depressão, nada disso pode ser tabu. Quanto mais forem debatidos, menos difícil será combatê-los, ajudar vítimas.

Obrigada Editora Nemo. Obrigada Una.

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