Eles Não Usam Black-Tie – Filme

No dia em que se comemora os 60 anos da primeira encenação da peça “Eles Não Usam Black-Tie” resolvi assistir a adaptação para o cinema feita por Leon Hirszman em 1981. Os mais de vinte anos que separam a peça do filme são visíveis na obra de Hirszman e isso não é um problema, pelo contrário.

A base do que foi escrito por Gianfrancesco Guarnieri, que no filme vive Otávio, está lá: o pai sindicalista; o filho que só pensa em si; a pobreza; a exploração dos trabalhadores. Tudo que é a mensagem principal da peça se mostra agora coberta com as cores de seu tempo. A década de 1980 foi o ocaso de ditadura militar, 1981, ainda tínhamos um presidente militar mas as eleições não pareciam um sonho distante, a abertura já era algo concreto e, principalmente, as greves do ABC tinham sacudido o país e e um certo sindicalista, que viria a se tornar presidente, já se mostrava um grande líder de massas.

É dentro do contexto do final da ditadura e com as greves do ABC que o filme é construído. Em alguns diálogos as greves dos metalúrgicos são citados e na cena do refeitório da fábrica o nome de Lula é citado ao fundo. Diferente da peça no filme a greve em si é uma protagonista, a violência policial, as divergências entre os operários, as diferentes formas de luta. A violência do Estado contra os trabalhadores e os mais pobres está em todo o filme, não era um momento propicio de se criticar a policia, vivíamos em um estado de exceção em 1981, mas as cenas estão lá.  Grande parte do filme gira em torno da organização da greve e menos no porquê das diferenças entre pai e filho, o que acho uma pena. As cenas de embate entre os dois falta um quê de impacto, infelizmente.

Carlos Alberto Riccelli é um Tião meio machista, meio perdido e que fica sem muito contexto no filme. Na peça todas as suas aspirações por uma vida melhor e seu inconformismo com a vida na comunidade se dá por ter vivido no asfalto com os padrinhos por anos. Essa passagem da sua vida é citada em uma única cena e não é explorada. No filme Tião é um alienado que pensa só em si, que é incapaz de pensar no coletivo, mais um sinal da época em que o filme foi feito.

As mulheres sofrem alguma transformação ao chegar às telas. A Germana de Fernanda Montenegro é bem menos amarga do que a da peça e bem mais conciliadora, já a Maria de Bete Mendes é uma revelação. A cena final do enfrentamento de Maria e Tião é a mais forte do filme, é ali que Hirszman faz explicito seu discurso e sua mensagem, é uma cena de impacto e todo o mérito é de Bete Mendes.

O título do filme se perde com a ambientação em São Paulo e não em um morro carioca rodeado de rodas de samba, mas isso é só um detalhe em um filme que merece ser visto e revisitado quase quarenta anos depois de ter sido feito.

 

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