Entre eco e bolhas literárias

Tá faltando lógica, compreensão, empatia, pensamento crítico e tá faltando leitura. É aquela velha ladainha: se você não lê, fica à mercê da visão (muitas vezes viciada) de terceiros e o que sobra é o eco de interpretações equivocadas.

É bem óbvio por que estamos todos com raiva. E é tão intensa que a gente transborda essa raiva para o mundo, para quem quiser ouvir. A merda é que, na pressa em se fazer ouvir, não paramos para escutar outras vozes além da nossa. Tem acontecido muito. E quem é o responsável por isso? A raiva que tem nos tornado impacientes e apáticos?

Enquanto decidia qual seria o tema da coluna deste mês, os últimos textos e vídeos do Gregório Duvivier não saíam da minha cabeça (adoro!!). Ultimamente tenho conversado bastante com meus melhores amigos sobre falácias… e a cada nova notícia que eu leio sobre nosso governo vem aquele gosto de bile na garganta que sufoca… sim, é lógico que estamos furiosos. Mas também estamos divididos. Infelizmente, estamos mais preocupados em discutir direita e esquerda e associações absurdas do que tentar entender o que é um discurso de ódio e por que ele não deve ser tratado como opinião e liberdade de expressão. Good Lord. Enfim.

Ainda que a abertura desta coluna sugira uma discussão política, na verdade, vim falar sobre o hábito de leitura e bolhas literárias. E, talvez, ao terminar de ler o texto de hoje, esses primeiros parágrafos façam algum sentido dentro desse contexto.

Antes de continuarmos, proponho uma brincadeira: imagine que você está num quarto fechado, deitado sobre uma cama, e acabou de abrir os olhos. Ao observar em volta, os móveis, os objetos, automaticamente sua mente está fazendo associações e conexões a fim de entender e dar sentido ao que você está enxergando. Seu campo de visão é limitado, você quer ver mais coisas, então o que você faz? Você se levanta, abre a porta, percorre os corredores, desce a escada, anda pelo jardim, atravessa a rua. Se isso fosse um jogo de computador multiplayer online, seu mapa que estaria flutuando no canto inferior direito da tela, antes vazio, agora apresentaria pedaços novos, destravados.

Imagine que o desbloqueio do seu mapa mental depende da quantidade de livros que você lê. Se você ler apenas um, vai continuar eternamente no quarto, deitado sobre a cama, dando significados limitados aos objetos que consegue ver. Quanto mais livros você devorar, maior fica seu campo de visão no mapa, afinal você multiplica a quantidade de objetos, cores, ângulo, interpretação. No entanto, ainda que você leia centenas de livros e torne seu mapa amplo e colorido, não adianta insistir sempre na mesma história, no mesmo gênero, nos mesmos caminhos, senão você cria uma bolha literária e seu mapa para de crescer.

Você pode buscar leituras apenas do que gosta, do que condiz com sua linha de pensamento, afinal a vida é muito curta para se perder tempo com o que não nos interessa, não é mesmo? É possível. Mas também é possível se desafiar a conhecer opiniões contrárias através de leituras “incômodas” e, desta forma, se preparar melhor inclusive para formar a sua própria opinião. Assim, seu mapa ficará mais completo que nunca.

Quando era criança a visão de mundo da minha mãe era também a minha. Era o único espaço que eu tinha acesso no mapa até poder percorrer o mundo por conta própria e destravar novos caminhos. Se eu não buscar conhecer nada além do que escuto, ainda que a pessoa que esteja falando seja muito inteligente, tudo que eu disser será um eco, um déjà vu, uma falha na Matrix.

Na adolescência eu lia suspense e terror e por um bom tempo acreditei que fosse meu gênero favorito, até perceber que, se eu ainda não tinha lido os outros, não tinha como saber de fato o que eu preferia. Resolvi aplicar a regra de três. Três livros de cada gênero, três livros de cada autor, quando possível. No mínimo, claro. Foi então que descobri o paradoxo mais lindo da humanidade (e foi antes também de eu conhecer Sócrates): quanto mais eu lia, mais entendia que pouco sabia. Enquanto estamos lendo, sim, nosso mapa aumenta, mas a sensação é que a energia escura em volta dele expande na mesma proporção nos deixando ainda mais no escuro.

Nesta mesma época, percebi que ler o que eu não estava acostumada me ajudava a ter novas perspectivas e a entender melhor as pessoas com as quais não concordava. A leitura – e principalmente a leitura “incômoda” – não só ampliava meu mapa como me presenteava com empatia, compreensão e tolerância.

A visão política dos personagens de Tolkien, Martin e Orwell, a visão econômica, tecnológica e filosófica do Frank Herbert, a visão psicológica nos livros do Stephen King, a transformação e o bizarro de Kafka, a leveza e a morte pessoal de John Green, o amadurecimento e a amizade de J. K. Rowling…

Quanto mais você lê, gêneros, história, autores de países e culturas diferentes, menos eco se formará na sua cabeça, afinal, seu mapa estará aberto. Não precisamos de mais eco no mundo, precisamos de vozes autênticas. Eu não sei se a leitura é a resposta para esses tempos sombrios, mas expande nossa capacidade de argumentação e compreensão e, sem dúvida alguma, é a nossa melhor defesa contra preconceito e discursos de ódio.

#Fui

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: