Entrevista com Caitlin Doughty

Nos dias 17 e 18 de junho, a autora Caitilin Doughty esteve no Rio para o lançamento do livro Para Toda a Eternidade, lançado aqui no Brasil pela editora Darkside e traduzido pela Regiane Winarski. Infelizmente, Caitlin acabou pegando uma dessas nossas viroses malucas e não conseguiu dar entrevistas na época. Mas conversou com os fãs durante um bate-papo maravilhoso, que contamos como foi nesse post aqui.

Caitlin é uma agente funerária, que estudou História Medieval na faculdade e acabou se especializando em morte. Parece estranho, mas não é. Tudo começou quando ela foi trabalhar em um crematório em São Francisco e acabou abrindo sua própria casa funerária, alguns anos depois. Por sempre ver a morte como uma consequência natural da vida, ela fundou “The Order of the Good Death” (A Ordem da Boa Morte, que teve o nome inspirado na Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte, lá da Bahia), para ajudar outras pessoas a aceitarem a morte de uma forma mais positiva.

Ela também tem um canal incrível no YouTube, “Ask a Mortician”, que faz um sucesso enorme. Provavelmente por causa da forma positiva e bem-humorada que ela trata de um assunto que ainda é tabu para muita gente. Seu bom humor também transparece nos livros que escreveu, que ao mesmo tempo traz conforto para quem luta para aceitar a morte.

Me identifico muito com os textos e vídeos da Caitlin, logo foi uma surpresa maravilhosa quando a Darkside falou que a autora estava disponível para dar a entrevista que não aconteceu no Rio. Conversamos por telefone e, infelizmente, o tempo foi curto para tudo que eu queria perguntar e para o que ela queria falar. Mas consegui conhecer um pouquinho mais sobre ela e divido essa experiência aqui com vocês:

Você estudou História Medieval na faculdade, com especialização em Cultura e Morte. Como isso te levou ao seu atual trabalho?

“Quando eu estava estudando percebi que na Idade Média se falava muito da morte. Que a morte aparecia muito nos livros e obras de arte. Havia esqueletos em todo lugar, participando de tudo. Então notei que a morte fazia parte da vida das pessoas na Idade Média e não mais na vida das pessoas do nosso tempo, apenas em filmes de terror. Quando fui trabalhar no crematório, que passei a entender que a morte precisa ser conversada, estudada, que é uma coisa natural e precisa ser vista de uma forma mais positiva”.

Como nasceu The Order of the Good Death e todo o movimento positivista em relação a morte?

“A ordem surgiu como um movimento que quer debater sobre todos os assuntos relacionados a morte, procurando diminuir o mal-estar que existe em relação a ela. Queremos encorajar pessoas a pesquisar e conversar sobre como lidar com o fim da vida, sobre as várias formas de enterro e como torná-las acessível ao público.”

“A Ordem foi criada para as pessoas entenderem a morte de uma forma positiva. Dela fazem parte outras pessoas que pesquisam e trabalham com a morte de várias maneiras. Estudam desde novas tecnologias para formas de enterro, até fungos e cogumelos que se formam em um cadáver, para proporcionar um fim mais digno para todo mundo”.

Você citou que atualmente a morte só aparece nos filmes de terror. Você gosta de filmes de terror?

“Todo mundo acha que por causa do meu trabalho eu gosto de filmes de terror. Não é bem assim. O meu namorado brinca muito comigo que eu passo o dia todo com cadáveres e tenho medo de filmes de terror. Não que eu tenha medo, mas não gosto de filmes com violência, cenas gore ou que torturem pessoas. Eu prefiro filmes de terror psicológico, que criam um suspense, que te fazem refletir sobre o que está acontecendo”.

No prefácio de “Para Toda Eternidade” você comenta que acha importante os familiares participarem da preparação do corpo, como parte do luto saudável. Mas mesmo no caso de uma morte violenta, em que o corpo possa estar muito danificado?

“Sim, principalmente nesses casos. Eu acredito que participar do ritual de preparação do corpo ajuda ainda mais as famílias a aceitarem uma morte violenta. Porém eu converso antes com eles. Explico como o corpo vai estar, tudo o que vai ser feito. Faço uma preparação emocional antes, converso com os familiares por um tempo, pergunto se eles realmente querem e se estão preparados para passarem por todo o ritual”.

Qual foi a maior diferença que você viu entre o Brasil e os EUA em como as pessoas lidam com a morte?

“Eu achei que ter apenas 24 horas com o corpo, como é no Brasil, é muito pouco tempo. Todo o ritual é bonito e achei interessante que a família possa passar uma noite com o morto. Mas é muito rápido ter que enterrar no dia seguinte. Nos EUA há um período de mais dias para que toda a família possa participar do enterro e se despedir do corpo, mesmo quem mora longe. Só que eu também entendo que no Brasil não há muitas opções de funerárias e serviços funerários que as pessoas possam pesquisar preços e saber como eles fazem o trabalho. Tudo é muito caro no seu país e esse é um dos fatores que obriga que o enterro aconteça em 24 horas, para que não encareça mais. No meu mundo perfeito, o ideal seria que as pessoas pudessem enterrar seus entes queridos da forma que achassem melhor e por preços acessíveis”.

Por fim, qual recado você deixa para seus fãs no Brasil?

“Eu espero que meus livros ajudem as pessoas a aceitarem melhor a morte. Que elas procurem conhecer melhor The Order of the Good Death e que um dia todo mundo consiga ver a morte como ela tem que ser vista, de forma natural. Espalhem as ideias da Ordem para o mundo, ajudem outras pessoas a verem a morte de forma mais positiva”.

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