Entrevista com Carol Bensimon

Carol-Bensimon

Amei tanto o livro “Todos Nós Adorávamos Caubóis“, que fui atrás da autora – a brasileira Carol Bensimon (que é uma simpatia!) – para falar um pouquinho com ela sobre essa obra. O resultado dessa conversa você lê abaixo.

CdL – Vamos começar com o básico: como surgiu a ideia para a história de “Todos nós adorávamos caubóis”?

Carol Bensimon – É difícil de saber como e exatamente quando. Como sempre, alguns temas, cenários, situações vão surgindo na cabeça, até que esses elementos comecem a se organizar em uma história. No caso do Caubóis, o início desse processo foi quando eu estava morando em Paris, lá por 2009. Os primeiros esboços da Cora são dessa época. Mas só quando eu voltei para o Brasil, no ano seguinte, é que veio a vontade de fazer com que praticamente todo o livro se passasse na estrada. De certa maneira, foi um jeito de reencontrar (ou descobrir?) minha terra natal.

CdL – A sensação que tive ao ler é que a história era muito íntima pra você, era como se fosse algo que tivesse transbordado para o papel, mas que tem um fundo de verdade, seja sobre preconceito, sobre amor, sobre enfrentar complexidades familiares, seja pelo amor ao Sul do país. Estou certa em pensar assim ou você é simplesmente uma excelente escritora?

Carol Bensimon – Hahaha, obrigada pelo “excelente escritora”. Não sei se a história é muito íntima para mim, quer dizer, não sou tanto o tipo que “transborda”, que usa a literatura de uma forma catártica ou terapêutica. E é raro eu colocar nos meus romances coisas que realmente aconteceram, até porque parte do meu prazer em escrever está em desenhar as tramas. Eu acharia muito chato ficar presa à realidade. Dito isso, bom, é claro que as coisas que eu coloquei no livro me tocam muito e dizem algo sobre mim. Por exemplo, vivi algumas relações ambíguas com amigas nos meus vintes e poucos anos (um pouco menos intensas que a de Julia e Cora). Mas escrevi sobre isso não para “acertar contas com o passado” ou qualquer coisa do tipo.

Eu diria também que há uma vontade interior muito forte de entender o mundo de hoje, e isso faz com que eu me sinta atraída por certos temas, como a já citada relação das duas garotas, a composição das novas famílias, a fragilidade das fronteiras geográficas, etc.

CdL – Cora é incrível e Julia também, mas de uma maneira tão forte quanto, mas um pouco mais sutil. Faz sentido? Como foi encontrar o equilíbrio para escrever personagens com vozes tão diferentes, mas com tanto a dizer, a sentir?

Carol Bensimon – Acredito que o fato de Cora ser a narradora faz com quem o leitor se sinta em uma relação mais próxima com ela (se comparado à relação que cria com Julia). Nós estamos na cabeça dela, e é difícil não sentir empatia numa situação dessas, inclusive nas eventuais contradições da personagem. A imperfeição humaniza.

Quanto à Julia, bem, ela está o tempo todo sendo vista através dos olhos de Cora, não é possível tirar esse filtro. Se ela parece misteriosa, é porque Cora não consegue decifrá-la. Esse clima do não-dito, da incerteza, de não saber até onde vai o desejo do outro, é muito importante para o livro. E não se trata apenas de um truque literário ou algo do tipo. A gente vê realmente isso acontecendo em muitas relações.

CdL – Road novel é um gênero muito conhecido e trabalhado nos EUA e achei uma delícia ler um passado por aqui. A forma do livro – narrativa vai e volta no tempo – com o vai e volta da viagem flui bem. “Caubóis” é um daqueles livros que a forma influencia na narrativa. Como foi criar a história e desenvolvê-la no estilo Road novel? Você fez alguma pesquisa, é conhecedora do estilo ou deixou o instinto te guiar?

Carol Bensimon – Sempre gostei muito de filmes de estrada. Thelma & Louise, Paris, Texas, Easy Rider, Aqui é o meu lugar, eu adoro todos eles. Então digamos que, nesse romance, a influência do cinema foi maior do que a da própria literatura. Essa influência determinou um pouco a estrutura do livro, a importância da paisagem, e a sensação de liberdade que a viagem dá a Cora e Julia. Mas as idas e voltas a que você se refere são muito “literárias”. Eu gosto disso, de ficar lidando com a memória o tempo todo, porque é um pouco assim que a gente se constitui, né?

Eu fiz pesquisa para o livro sim. Fui a todas as cidades pelas quais elas passam, tirei fotos, fiz anotações, procurei sentir o ambiente e “selecionar” os lugares que condiziam com o clima do romance. Lugares decadentes, lugares vazios, cuja beleza não está escancarada, mas sim escondida nos pequenos detalhes.

CdL – Li alguns romances entre dois rapazes e achei lindo (“Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo” é uma delícia de leitura!), mas até “Caubóis”, não tinha encontrado um com meninas. O romance entre Cora e Julia é uma parte forte do livro, mas defini-lo como “road novel homossexual”, na minha opinião, é diminuir o livro. Ele é tão mais do que isso! Mas também é impossível não abordar a questão do preconceito. Como foi escrever sobre duas meninas no Sul? Recebeu alguma crítica negativa quanto a isso?

Carol Bensimon – A literatura é tão marginal, tão fora da vida cotidiana (infelizmente) que os preconceituosos nem ligam para ela. Melhor se preocupar com beijo gay de novela! Então não, não recebi nenhuma crítica focada na relação de Cora e Julia, ou ao menos nada que tenha chegado até mim. Mas é claro que posso imaginar que alguns deixaram de comprar o livro porque “o tema não me interessa tanto”. De qualquer maneira, sim, eu acho que você tem razão, não é um “livro gay”, e eu diria que isso não é mérito do meu romance, mas do nosso tempo. Antes você tinha essas divisões muito mais claras, tudo era mais compartimentado, inclusive o comportamento das pessoas, mas hoje a gente vê, sobretudo nas novas gerações, um apagamento disso, uma experimentação maior, em termos de sexualidade, carreira, lugar onde morar, etc. Nenhuma identidade é tão definitiva quanto antes.

CdL – Quais são seus próximos projetos?

Carol Bensimon – Eu devo lançar uma graphic novel, que estou fazendo em parceria com um desenhista, o Bruno Seelig. E já comecei a trabalhar em um novo romance.

 

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