Escândalo na Boêmia e outros contos clássicos de Sherlock Holmes

Elementar, meu caro leitor, você há de concordar que Sherlock Holmes é o maior detetive do mundo (e não sou eu que estou dizendo, é o Guiness!)

Inspirado em Dupin, de Edgar Allan Poe, que criou a base das histórias de detetive na literatura, e, que por sua vez, inspirou a criação de Poirot, de Agatha Christie, Holmes conquistou o coração de todos e se tornou um fenômeno global. O detetive, que usa métodos peculiares para decifrar mistérios, é tão querido pelos leitores que nem o próprio criador, Arthur Conan Doyle, conseguiu matá-lo. O público fez tanto barulho que o autor teve que acatar e trazer o personagem de volta às nossas vidas. Ok. Isso foi no final do século XIX, início do século XX, mas, ainda que os tempos tenham mudado, nem George R. Martin conseguiria uma façanha dessas.

Escândalo na Boêmia e outros contos clássicos de Sherlock Holmes é uma antologia exclusiva organizada por Mário Feijó, publicada recentemente pela editora Record e traduzida por Leonardo Alves, que reúne 15 contos escritos por Doyle para Strand Magazine, que circulou na Inglaterra entre os anos 1891 e 1930. Foi em 1887, na história Um estudo em vermelho, publicada na Lippincott’s Magazine, que Sherlock apareceu pela primeira vez, mas é com o conto Escândalo na Boêmia, estreia do detetive na Strand Magazine, em 1891, que Conan Doyle fez mais sucesso e garantiu todas as seguintes décadas de publicações, novelas e mais de cinquenta contos sobre seu principal personagem. Não à toa, foi o conto escolhido pelo organizador para abrir esta coletânea.

São raríssimas as vezes que os planos mirabolantes do Sherlock são frustrados e, neste primeiro conto, provavelmente meu favorito, talvez pela carga feminina, talvez porque o detetive “falha”, ou talvez porque a engenhosidade da escrita supera a engenhosidade do mistério em si, Holmes é desbancado por uma mulher.

Em todos os quinze contos, e, até onde sei, todas as histórias do detetive, ainda que sejam sobre os mistérios que precisam ser desvendados, Sherlock e seus métodos científicos, sua lógica dedutiva, seus maneirismos e excentricidades, quem nos apresenta tudo isso é o Dr. Watson. Doyle também foi médico, além de escritor, e não consigo deixar de pensar que, de certa forma, o autor se via na posição do Watson de ser alguém não apenas capaz de compreender as atitudes do detetive como também decifrar as conclusões que ele chegava.

Desde sumiço de documentos, planos mirabolantes de assaltos, organizações criminosas a casos de espionagem capazes de derrubar o governo, Doyle usa quase sempre o mesmo método: Watson nos apresenta a história, sem dar pistas do que está acontecendo, porque convenhamos, muitas vezes nem ele sabe, e nos últimos parágrafos, Sherlock Holmes nos deslumbra com suas conclusões e deduções incríveis e sobrenaturais, que fazem dele não unicamente um cara superinteligente, mas praticamente um semideus.

No entanto, ele não é nem nunca foi um herói clássico, como a gente descobre, aos poucos, a medida que sua personalidade vai sendo exposta por Watson, e talvez, justamente por conta dos defeitos, é que o personagem se tornou tão palatável, amado e não inverossímil, o que podia acontecer caso o personagem não tivesse nele resquícios de humanidade. Sherlock é viciado em cocaína, orgulhoso demais, extremamente racional, beirando à psicopatia, não fosse a visão de Watson que, de vez em quando, o humaniza e traz à tona um lado solitário e melancólico do personagem, e é muito direto, o que nem sempre é considerado uma virtude.

No polêmico conto O problema final, quando Doyle apresenta o famigerado Moriarty e finalmente decide matar seu ícone, escandalizando os leitores de Londres, causando protestos no mundo todo, acho que foi a primeira vez que vi que o Sherlock tinha um propósito maior que ele mesmo, de acabar com a rede de crimes do grande vilão, ainda que ele morresse no processo. Foi quando me apaixonei pelo personagem e me percebi conquistada pela obra de Arthur Conan Doyle.

Não sei se eu teria sido uma das pessoas que protestaram contra a morte de Holmes, porque respeito muito a decisão dos autores sobre suas obras, ainda que a decisão de Doyle tenha sido capenga do tipo “não quero mais escrever sobre esse cara aqui que faz um puta sucesso, porque, né, sucesso demais faz mal e melhor focar numas novelas históricas aí”, porém, me sinto privilegiada de não ter sido obrigada a esperar dez anos para a volta triunfal do detetive em A casa vazia.

Nesta coletânea da Record você pode ler um conto atrás do outro e entender como diabos Sherlock escapou das cataratas de Reichenbach em questão de minutos. Chega a ser injusto, eu sei, e, em consideração aos leitores do passado, esperei dois dias pra ler e saber o que tinha acontecido, e confesso que já foi bem angustiante, imagina dez anos?? Bad, Doyle!

A coletânea termina com um dos últimos contos de Doyle, Seu último caso – Um epílogo de Sherlock Holmes, e nos apresenta um Holmes bem mais velho, que sai de sua confortável aposentadoria, vivendo numa fazenda em Sussex, para resolver mais um mistério. Embora Doyle tenha escrito outro conto além desse, é aqui que nos despedimos do grande detetive e nos convencemos, de uma vez por todas, ainda que haja evidências disto ao longo da obra do autor, de que o verdadeiro ponto fixo em uma era de transformações não é apenas o Watson, mas sim o amor de Sherlock pelo companheiro de investigações, a quem ele deve não apenas pela parceria, mas por tê-lo transformado em um símbolo tão excepcional.

Lógico que eu tinha que terminar minha resenha de forma brega e enaltecendo meu amor pelo Watson, que, apesar de não ajudar muito de fato nas investigações de Holmes, é o verdadeiro bardo e herói da história. Por essas e outras que admiro tanto o trabalho do Moffat (sem xingamentos, por favor, a série não está em julgamento aqui!) na adaptação da BBC com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman. Ele soube captar o melhor e o pior do Sherlock sem ofuscar o carisma, a sensibilidade e o romantismo do Watson, tão presente na obra cânone e que nos deixa sempre com um gostinho de quero mais.

Ps. Comecei a resenha com um elementar, meu caro leitor, fazendo alusão à famosa passagem “Elementar, meu caro Watson”, mas sinto-me na obrigação de dizer a vocês que essa não é uma frase de Doyle. Não consta em nenhum de seus contos. Na verdade, ela vem de uma adaptação para o teatro e fez tanto sucesso que hoje é praticamente impossível separá-la do personagem.

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