Escuridão fugaz de um cérebro com lembranças

A nossa memória é um treco muito esquisito.

A gente acha que se lembra das coisas mas a verdade é que a gente não se lembra de droga nenhuma. A gente se lembra de alguma coisa, mas não exatamente das coisas como elas aconteceram, porque afinal nosso cérebro é espertinho demais pro nosso gosto e adora completar um quebra-cabeça.

Quando eu paro para pensar na minha infância, nas viagens, na escola, nos amigos e nas conversas que tive com minha mãe, não é com a cabeça de 5, 8, 10 e 14 anos que eu lembro. É com a cabeça de hoje. Eu tento resgatar o que se passava na minha cabeça naquela época e eu tenho essa certeza biruta de que não era nada tão longe de como eu penso hoje, mas estou enganada. É óbvio que era muito diferente.

Você percebe que isso muda absolutamente tudo? Tudo o que a gente acredita sobre nosso passado, nossa infância, nossas lembranças, é tudo ilusão. É tudo resultado de uma soma de muitos fatores, sendo quem somos hoje o principal deles.

Como não acessar memórias com a nossa cabeça do presente? É impossível. O resgate precisa partir de um ponto e esse ponto é nossa mente de agora. Só que agora eu tô aqui entrando em colapso imaginando então que é tudo falso, ou, se eu quiser optar por ser otimista, posso pensar nas memórias como algo não linear, algo em constante mudança justamente porque nossa mutação não tem fim. Se estamos nos transformando o tempo todo, isso significa que nossa memória caminha junto, se transforma também. É como se a gente estivesse vivendo tudo de novo de várias formas o tempo todo. Basta que a gente se dedique a acessar essas memórias vez ou outra. Isso é tão sinistro…

Sei que parece óbvio tudo isso que estou dizendo, pelo menos pra mim é, mas quando você para pra refletir no que é a memória, no que significa escolher o ângulo com o qual uma cena desabrocha na sua mente depois de tantos anos como se você fosse o diretor do filme da própria vida, as escolhas dos elementos com os quais você constrói essa lembrança, roupas, cheiro, diálogos… tudo isso, todo esse poder de reviver a vida não devia ser tratado de forma leviana, meus amigos.

O fato de a gente poder mudar as lembranças, como a gente bem entende, e quase sempre até de forma inconsciente, pode ditar muitas decisões na nossa vida, e isso pode ser ou muito perigoso ou reconfortante. De ambas as formas, as memórias não ditam quem somos, mas como a gente acha que já viveu um dia, e provavelmente estamos errados.

Gente, é sério, isso é muito louco.

Quanto mais a gente entender o quanto não sabemos lhufas do que nos aconteceu no passado de verdade, mais chegamos à conclusão de que não podemos ter certeza de nada, certo?

Foi mal a dose de loucura pela manhã, mas estou sozinha num quarto de hotel meio maluco em São Paulo, depois de ter devorado um pedaço enorme de bolo indiano, e acho que o açúcar subiu direto pro telhado e bateu com força na porta das reflexões.

Na verdade, eu faço isso o tempo todo, mas evito falar em voz alta por motivos óbvios. =) Espero ter contagiado você de alguma forma. E que seu dia seja lindo, ainda que você não vá se lembrar dele da forma como ele vai se desenrolar, anyway. Sorry about that.

#Fui

Um comentário sobre “Escuridão fugaz de um cérebro com lembranças

  1. Tenho lidado com isso de uma forma muito simples: o nosso eu passado morreu, a gente morre todo dia e vamos nos tornando outra pessoa. Não importa quem fomos e nem mesmo quem seremos já que não dá para planejar muito o melhor eu para um futuro desconhecido, importa quem estamos sendo.

    Essa reinterpretação do passado nos dá a liberdade para não ficarmos presos a ele.

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