Extraordinário

Li o livro, vi o filme e ainda estou tentando construir frases coerentes para explicar o quanto ambos são, bem, extraordinários.

Láaaaaa atrás, quando recebi o li o livro de R.J. Palacio, pensei que seria aquele típico livro sobre um personagem que sofre por ser diferente. E eu estava muito enganada. “Extraordinário” (traduzido por Rachel Agavino e publicado no Brasil pela Intrínseca) é muito mais do que isso. Ele começa contando a história de Auggie, um menino de 10 anos que passou por dezenas de cirurgias para poder fazer algo comum como ouvir, enxergar, engolir. Ele tem uma síndrome que deformou seu rosto, mas não seu espírito e é sobre isso que se trata o livro, sobre a personalidade e escolhas não de um personagem, mas de vários.

A história é bem simples: um menino diferente precisa sobreviver à quinta série e o impacto que essa nova experiência tem nele e naquele que o cercam. Mas existe TANTA entrelinha no meio disso tudo! Até porque a vida é assim, repleta de nuances e situações que, se você for gentil e deixar a empatia tomar o lugar do preconceito, aprenderá e crescerá de forma imensurável. Confia na tia porque a tia aqui sabe dos paranauês!

“Extraordinário” é escrito em primeira pessoa de vários personagens. Temos vários capítulos narrados pelo protagonista, Auggie, que tão jovem já senti literalmente na pele o preconceito e o ódio dos outros por ser diferente. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. E ninguém deveria se sentir assim. Mas além de Auggie também conhecemos os pensamentos de Via, sua irmã mais velha, de Justin, seu namorado, de Miranda, sua ex-melhor amiga, de Summer e Jack, crianças que, assim como Auggie, estão tentando sobreviver da melhor forma a quinta série.

Aviso: a resenha contém spoilers sobre o livro e sobre a adaptação. Acho que nada estraga, mas avisar é essencial 🙂

Conflitos e atuações
A primeira diferença entre filme e livro é que os conflitos entre os personagens no livro são mais profundos, mas isso é normal na diferença de mídias. O livro sempre vai trazer mais detalhes do que o cinema porque não precisa se preocupar com tempo de filme ou orçamento. Mas o filme tem outro desafio: se preocupar com tudo isso e ainda conseguir transmitir a mensagem que conquista leitores no livro. E nisso, a adaptação cinematográfica de “Extraordinário” (distribuída no Brasil pela Paris Filmes) foi brilhante.

Sim, o filme também é narrado com diversos pontos de vista – pena que não o da Summer, que é uma fofura -, mas teve os conflitos um pouco atenuados pelas razões descritas acima. Mesmo com essa leve alteração, tudo funcionou em um equilíbrio excelente, mesclando drama com humor e muita veracidade. Não sou fã da Julia Roberts, mas ela está perfeita nesse filme! O medo, a apreensão e o amor de mãe estão sempre presentes em seu olhar, mas quando ela precisa transmitir segurança ao filho, mesmo em um momento muito delicado para ele, ela incorpora aquela sabedoria que só mães têm e consegue passar segurança a Auggie. Ver essas transformações sutis na tela deu gosto! Me emocionei muito com ela porque ela, muitas vezes, é a gente: pessoa que ama alguém incondicionalmente e sofre ao ver que o mundo cria condições para aceitar quem a gente ama.

Outro maravilhoso é Owen Wilson, que interpreta o pai de Auggie. Simpático e engraçado, Owen também consegue mostrar a importância de um pai presente, de um pai que também ama o filho com ônus e bônus de todo relacionamento tem. E Izabela Vidovic que é a quieta Via está deslumbrante! Atuar bem não quer dizer que você precisa estar produzida com maquiagem e figurinos exuberantes e fale sem parar o filme todo. Atuar bem quer dizer verdade com palavras que não são suas, mas que você entende e transmite como se fossem. Izabela está excelente.

Noah Jupe que interpreta Jack e Millie Davis que vive Summer são as crianças mais preciosas do mundo! Quero os dois no elenco de Stranger Things, gente! Que atores mirins sensacionais!

E nada pode ser dito sobre Jacob Tremblay. Se ele já arrasou em “O quarto de Jack”, em “Extraordinário”, Jacob dá um show! Não só quando está em cena, mas quando narra em “of” também.

Uma coisa que senti falta foi mais do Sr. Browne. No livro, as suas aulas sobre preceitos me marcaram muito, mas passam mais sutilmente no filme, diluindo em outras situações as lições aprendidas ali.

Temas
Claro que bullying é um tema forte em “Extraordinário”. Na minha opinião, esse foi o tema que, diferente do livro, foi mais profundamente explorado no cinema. Julian é aquele menino rico e metido que encontramos em escolas (reais e fictícias) e que implica com Auggie só por ele ser diferente. É ridículo e muito real, o que torna a situação mais odiosa ainda! Gente, na boa, o que faz um serhumaninho iluminado sacanear um garotinho que só quer ser normal e ter amigos? Enfim, no filme a gente conhece os pais do moleque e entende que o menino pode tacar fogo no mundo e eles vão defender e dizer que não têm culpa se o planeta é inflamável. Sacou a tchurma? Pois é. Dá mais raiva ainda porque também conheço gentinha assim. Continuando … no filme, quando confrontado pelos seus atos, Julian se desculpa e vimos nos olhos do menino o quão arrependido está porque, por mais que seja óbvio para nós o quão mal fazia a Auggie, para ele não era. Essa cena é muito bonita porque não somente mostra a responsabilidade do diretor da escola, mas também a dos pais (que aqui não assumem) e a do bully, que se redime.

Outro tema é empatia e compreensão. Olivia – ou Via – é a pessoa mais compreensiva do mundo! Mesmo quando adolescente, ela sempre entendeu que Auggie era diferente e que precisava de cuidados especiais e no lugar de se revoltar por não ter atenção, ela entendeu. Só que esse tipo de doação também tem um preço e ela se fechou e, por mais que ame o irmão, queria ter um pouco da atenção da família.A interação dela com a avó (que no filme é vivida em uma única cena pela brasileira Sonia Braga – ah, ela e a mãe de Auggie são brasileiras no livro!) é muito tocante. Ter uma pessoa no nosso lado às vezes é tudo que precisamos, mesmo que essa pessoa seja apenas uma memória. A jornada dela no filme e no livro é muito, muito bonita e uma grande lição. Via é empatia pura, é entender o que o outro passa, sente, precisa e estar ali para ajudar e não julgar; doar e não tomar. Linda personagem!

Curiosidade
Por fim, porque isso tá mais parecendo uma tese, algo que eu notei em “Extraordinário” e amei foi a representatividade. Justin – namorado da Via –, Summer e o professor Browne são interpretados brilhantemente por atores negros. Não lembro se o livro cita sua aparência física ou não, mas o que amei no filme é que são negros e ponto final. São importantes para a história e têm o tom da pele diferente. Eu AMO quando a representatividade é tão natural porque a vida deveria ser natural; não devíamos ter que discutir e segregar e impor, mas sim ter a possibilidade de assistir a filmes e sentirmos representados.

“Extraordinário” é um filme de direção sensível, com ângulos de câmera que agregam para a narrativa, com referências nerd (que eu amo!) e com o tempo narrativo equilibrado com tudo isso. Não é um filme triste ou sobre um menino deformado! “Extraordinário” é sobre como todos nós podemos ser mais gentis e respeitar a batalha que cada um trava no seu íntimo. Quem sabe, se cada um olhar o outro com mais carinho, as batalhas se tornarão mais fáceis de serem conquistadas?

 

Evento
E mesmo depois do texto acima concluído, eu tenho TANTO para comentar e debater sobre o filme e sobre o livro! Ainda bem que vai ter evento no sábado sobre o tema! Vem conversar comigo, por favor? Preciso falar sobre isso, gente!

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Um pensamento em “Extraordinário”

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