Fahrenheit 451 (2018)

Prometia: A HBO em grande fase (Game of Thrones, Westworld), ótimos atores (Michael B. Jordan em ascensão, Michael Shannon), e um diretor com filmes elogiados e comprometido com causas sociais, pra adaptar o clássico distópico de Ray Bradbury. O que podia sair errado? Muita coisa.

Michael B. Jordan in Fahrenheit 451 (2018)

Logo de cara, o clima está mais pra 1984 do que para a distopia conformada e alienada de Bradbury. Vemos um Estado com todo o aparato, brutalidade e uniformes negros do fascismo. Alunos aprendem slogans como “felicidade é a verdade”, e “liberdade é escolha”, que soam como os slogans da obra de Orwell (“guerra é paz”, “liberdade é escravidão”, e “ignorância é força”). Mas a opressão na obra de Bradbury é mais sutil. É praticamente voluntária, como diz a rebelde Clarisse (Sofia Boutella) num trecho quase tirado direto do livro. O regime em vigor em Fahrenheit 451 não veio de um golpe, não foi imposto, foi se instalando aos poucos com o consentimento da população. Uma população que quase não é vista no filme. Aqui temos os bombeiros de um lado, os rebeldes do outro, mas quase não vemos como vive a grande parte da população no meio.

Aqui faz muita falta a personagem da mulher de Montag. Hoje em dia muitos criticam a obra de Bradbury por causa do papel das mulheres, relegadas a donas de casa hipnotizadas pela televisão. Primeiramente, isso é um reflexo da época em que ele escreveu o livro (1953). Sempre digo que a Ficção Científica às vezes diz mais sobre as preocupações da época em que foi escrita do que propriamente sobre o futuro. Mas de qualquer maneira, no livro é a mulher de Montag e a relação dela com as amigas que nos mostra um pouco da vida da população, anestesiada e conformada mas também com uma ponta de angústia. É contra essa vida vazia e superficial, com uma cultura emburrecida que Bradbury elabora a sua crítica. E vemos muito pouco disso no novo filme, só na vida do próprio Montag, e numa cena rápida de pessoas usando realidade virtual dentro de um bar.

Qualquer nuance é deixada de lado. Nesse aspecto o filme, como eu digo, retrata bem a nossa época de polarização na política. Impossível não ver como uma reação ao governo Trump. Tem referências a uma segunda guerra civil, e até um slogan, “Burn for America Again.” Sutileza passou longe. Se ainda conseguisse empolgar, tudo bem. Mas não emociona nem quando Montag resolve se revoltar.

A transposição pra nossa época digital até que funciona. Bradbury escreveu quando a televisão começava a invadir as casas. O filme acrescenta redes sociais e inteligência artificial. O cuidado visual do filme só faz lamentar ainda mais a oportunidade perdida. Mas faltou cuidado com a história. Não vou dar spoilers, mas várias situações e ações dos personagens são inverossímeis. Michael Shannon precisa se cuidar: está ficando marcado pelo papel de vilão, e de uma maneira meio óbvia. Continua excelente, mas o seu Capitão Beatty poderia ser neto do Strickland de “A Forma da Água”. E a insinuação de uma atração de Beatty por Montag é forçada, está deslocada e só faz perder o foco da motivação do personagem.

É uma pena. Numa época em que a liberdade de expressão é atacada pela polarização política e pelas “fake news”, uma obra que defenda o pensamento livre é mais do que bem-vinda, é necessária. Mas essa foi uma oportunidade desperdiçada.

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