Fantasmas – parte 1

 

“Volte para o eclipse, Jessie”

1

Os retornos estavam obstruídos com cones de concreto e o carro, seguindo pelas ruas vazias, avançava lento. A luz dos faróis iluminava o tapete de folhas secas e tudo aquilo era estranho, como num sonho, mas absolutamente real.

            Não era essa a rua?

Mas pra que, então, você disse que ia? Você pode mudar de ideia, you know. Faz um retorno e-

            Não tem retorno, você não tá vendo?

            Dá ré, vira essa porra de carro ou qualquer coisa, mas não vai, você não precisa ir.

Eram as vozes, suas vozes, fantasmas, se sobrepondo como vários rádios ligados ao mesmo tempo em uma pequena sala.

 

A cidade parecia abandonada, como num filme ou em um livro barato e ruim. Os prédios baixos e escuros. Sob a fraca luminosidade da noite, ele podia ler placas nas janelas:

Vende

Aluga

Passo ponto

Lulalivre

Foratemer

Ordemeprogresso

 

É assim que as pessoas que caem em redemoinhos devem se sentir, é exatamente assim, num looping, girando pelas mesmas paisagens – a carcaça de uma baleia, um navio fantasma, a carcaça de uma baleia, um navio fantasma, a carcaça fantasma uma baleia navio – até tudo perder a distância, a separação, e não haver mais diferença entre um navio e uma baleia.

 

O número era pequeno, em um metal luminoso, 90.

Foi um brilho, uma espécie de relâmpago que acendeu brevemente o mundo, e ele pôde ver o número estourar em um flash de controles e botões antiatômicos e pensou se não estaria no fim do mundo.

Não havia nenhum outro carro.

Claro, porque as outras pessoas não precisam de carro para se locomover. Em um sentido bastante concreto, eu sou o único aqui.

 

Estacionou.

Desligou o carro e o mundo submergiu em uma estranha ausência de luz elétrica. Uma brisa que parecia aumentar arrastava as folhas na rua de paralelepípedos. Os tons eram acinzentados, com baixa saturação – estava nublado e ele desconfiava que choveria.

E não seria perfeito?

Seria, seria perfeito, sim.

 

Ajeitou a gola da camisa e, no espelho retrovisor, o cabelo, como se houvesse muita coisa para ajeitar.

Chega, pensou, tirou a chave da ignição, abriu a porta, colocou um pé pra fora, esmagando folhas secas, girou de lado e saiu, olhando para a velha casa enquanto batia a porta do carro. Tinha uma vaga noção do seu reflexo fantasmagórico no vidro fumê do carro, como um fantasma, um duplo que o acompanha para onde quer que fosse.

Mas, dessa vez, teve a nítida impressão de que essa outra imagem de si mesmo ficaria no carro, esperando – eu estou ficando louco…

[continua]

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