Fins de Mundos – I

 

 

Acabar com o mundo não é, necessariamente, destruir o planeta ou a humanidade. O que chamamos de mundo (esse espaço simbólico e físico, comum e inacessível), das nossas experiências afetivas, sensuais, éticas e estéticas, também pode ser destruído para que novas formas e possibilidades – futuros – surjam. Habitar nas ruínas, ter cautela com os restos, investigar as fissuras e os buracos – uma delicadeza da e na destruição.

 

Como especular sobre o fim do mundo?

O exercício de futuridade falhada, fracassada – esse futuro-presente capitalista, neoliberal, no qual apostamos todas as nossas fichas: um tempo que permite apenas a produtividade, o resultado, o fim de tudo. Qualquer corpo ou prática que não se insere nesse contexto é residual, lixo. O descarte é para todos, no entanto; a metáfora da máquina e suas peças substituíveis. No início do século XX Fritz Lang já olhava para o mundo através dessas especulações – apenas uma ruptura profunda na sensibilidade seria capaz de paralisar o inferno.

Nesse tempo e nessa lógica – nesse regime, se quisermos – pensamos e produzimos, cotidianamente, o fim: o fim do texto, do fim da imagem, o fim das tarefas, o fim da limpeza, terminar, ex-terminar: e tudo retorna, a poeira se acumula sobre os móveis, abrimos um outro livro, começamos uma nova série…

Parece, então, compreensível que, através do audiovisual e da literatura, tentemos dar conta do fim radical e da radicalidade do fim. O que seria, em última instância, um evento – ou eventos – que fariam cessar a forma como vivemos hoje?

As apostas são plurais, mas resvalam para um nomadismo: agarre o que der, agarre o principal e corra, fuja; caminhar quilômetros sem gps, sem um destino certo, buscando apenas uma continuidade – nesse estado das coisas destruídas, após o fim, terminar não faz mais sentido. A angústia e ansiedade em relação às coisas que não se completam se desfazem diante da reorganização da experiência.

Falhar e fracassar perdem o peso esmagador do capitalismo patriarcal e industrial. O Fim e o Após-o-Fim rearranjam os corpos, as subjetividades e os papéis sociais e culturais: apre(e)nder com o tempo.

 

O tempo, a nossa percepção do tempo, deixa de ser a linearidade inexorável sempre indo pra frente, na direção da finitude: resgatamos a ideia de uma temporalidade cíclica, evoca pelo filma A Chegada (Denis Vileneuve, 2016). Nesse filme, diante da possibilidade do fim da vida como conhecemos, instaurada pela chegada de gigantescas naves espaciais na Terra, a linguista Louise Banks precisa abandonar as sensibilidades contemporâneas de tempo e espaço, de língua e comunicação, e se engajar em um projeto de alteridade – alienígena – de outras compreensões possíveis da experiência.

 

O que compreendemos como fim diz respeito ao término da nossa experiência: a finitude dos nossos corpos, da sociedade de consumo. Da Revolução Industrial para cá, da emergência do Iluminismo e do Humanismo, inventamos diversas figuras de alteridade que dessem conta dessa finitude – mas são imagens, espectros ou seres espectrais que dependem dos jogos entre o visível e o invisível, entre o dito e o não dito; exterminada a humanidade, qual o destino dos monstros?

Desaparecem também.

Nós somos nossos próprios monstros – produzimos, incessantemente, nosso próprio fim.

Nossos reflexos incertos em espelhos polidos e iluminados flertam conosco através de uma perversa lógica de re-des-conhecimento: sou eu?

Sou eu. A aparição de um desaparecimento.

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