Jogador Nº1

O ano é 2044 e a vida na Terra já não é mais a mesma. Fome, guerra, uso abusivo dos recursos naturais e pobreza empurraram a humanidade para um estado extremo de apatia. Sobreviver se tornou um desafio cada vez mais difícil. Wade Watts, um garoto pobre e órfão de 17 anos, é obrigado a ir morar com a tia, e, como tantos outros, para fugir da realidade cruel, ele passa horas e horas conectado ao OASIS: um famoso jogo de realidade virtual para múltiplos jogadores que te permite ir a qualquer lugar, fazer e ser o que quiser.

Seu criador, James Halliday, um gênio do computador e nerd de carteirinha, transformou o mundo com seu jogo de livre acesso e mudou a forma como as pessoas viviam, trabalhavam e se comunicavam. Um despertar de uma nova era, na qual praticamente toda a humanidade passava a maior parte do tempo de suas vidas dentro de um jogo.

Quando James Halliday morre, um vídeo é disparado para todos os usuários anunciando um desafio: uma busca pelo tesouro, um easter egg dentro do jogo. E somente o usuário que entender a fundo a obsessão de Halliday pelos anos 1980, década em que viveu sua adolescência, e todas suas referências e inspirações em videogames, clássicos da ficção científica, fantasia, aventura e filmes e séries de todos os gêneros, será capaz de encontrar as chaves para o tesouro, vencer a corrida e herdar seus 240 bilhões de dólares.

No entanto, além de Wade, muitos entram na corrida, inclusive uma empresa concorrente que quer desesperadamente herdar a fortuna de Halliday, controlar o OASIS e impedir que o jogo continue oferecendo acesso gratuito ao mundo todo. Ao aceitar o desafio, Wade se torna o inimigo número um dessa empresa e terá que enfrentar perigos virtuais e reais, colocando toda sua vida em risco.

Adaptado do romance homônimo de Ernest Cline, publicado pela editora Leya em 2012, o Jogador Nº1 é muito mais do que um filme nostálgico com milhares de referências à década de 1980. É uma bela de uma homenagem e um espetáculo digno de seu diretor Steven Spielberg, que, apesar de ter considerado esse um de seus filmes mais difíceis de fazer, perdendo apenas para Tubarão e O Resgate do Soldado Ryan, não perde a mão e ainda acerta a quantidade perfeita de entretenimento para todas as idades.

Embora não tenha usado as referências a si mesmo, que Cline tão elogiosamente inseriu no livro, Spielberg foi uma peça importantíssima para a década de 1980 e contribuiu de muitas formas para a cultura pop que hoje provoca nostalgia em muitos de nós. Quem mais indicado que ele para comandar essa história? Além de ter acertado o tom das referências mais antigas, e eram tantas que eu tive vontade de pedir para pausarem o filme várias vezes no cinema para dar tempo de absorver tudo, Spielberg manteve um bom ritmo ao longo da trama e das subtramas e soube dialogar muito bem com o público mais jovem, que não viveu nas décadas anteriores aos anos 2000.

Com a ajuda do roteirista Zak Penn, que escreveu também Os Vingadores (2012), Spielberg criou uma aventura de ficção científica madura, consciente e sensível. Confesso que lembrei um pouco de Goonies; a visão romântica dos personagens, a luta contra um inimigo em comum que quer destruir o que eles chamam de “lar”, a busca por um tesouro. Tem romance, amizade, empatia. E, enquanto viajamos para um universo perfeito, que une o antigo ao novo e desafia os limites do digital, somos levados a questionar o tempo investido na realidade virtual. A princípio pode até parecer uma crítica batida, mas, à medida que a tecnologia se transforma e com ela nosso comportamento e necessidades, acredito que, até nisso, Spielberg soube dosar, ao refletir os prós e contras de uma forma muito responsável; ainda que num contexto de ficção distópica.

Se esse filme não é uma aula de cultura popular e diversão — e uma excelente pedida para o fim de semana —, eu não sei mais o que pode ser. Só sei que eu vi em IMAX, quero ver de novo e de novo e depois em DVD pra poder pausar quantas vezes eu quiser até pegar todas as referências. Sou dessas.

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