Joyce Carol Oates

A escritora americana Joyce Carol Oates completou 80 anos recentemente, mas nem por isso pensem que ela diminuiu o ritmo. Só este ano já publicou duas coletâneas, e tem um romance saindo este mês que vai dar o que falar. Pra uma bibliografia tão vasta (mais de 100 obras entre quase romances, livros de contos, peças, ensaios, e ainda dez livros infantis ou jovem adulto), é uma pena que tenhamos tão pouco em português. O mais recente por aqui é Mulher de Barro (Alfaguara, Trad. Débora Landsberg), em que a presidente de uma Universidade conceituada tem que enfrentar os traumas da infância pobre sob a crueldade da mãe, uma fanática religiosa. Pra se ter uma ideia, desde 2015, quando saiu aqui, ela já publicou mais oito livros!

foto: Marion Ettlinger

Ela trafega com facilidade em vários gêneros, do realismo social ao gótico. Há mais de vinte anos vem sendo cotada para o Nobel de Literatura; entre os prêmios que ganhou estão o National Book Award e três Bram Stoker, o principal do terror. E foi pelo terror que conheci Joyce Carol Oates. Obsessões, traumas e crueldade são temas que ela explora constantemente, seja nos contos de terror ou nas obras ditas “normais”. Joyce se diz influenciada principalmente por Kafka, e considera Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll, o livro mais assustador que já leu. É ferrenha defensora de H. P. Lovecraft (tem um excelente ensaio sobre o autor), e no mais recente livro de contos ela pega emprestado o nome de uma das criaturas dele como título:  Night-Gaunts and Other Tales of Suspense.

“Woman in the Window”, inspirada por uma tela de Edward Hopper (transformada em foto na capa do livro), fala de uma mulher que espera o amante casado. Oates alterna os pontos de vista entre os dois, enquanto se aproxima o que pode ser o último encontro deles. O conto vai num crescendo, com ambos planejando matar e se livrar um do outro…

“The Long-Legged Girl” é narrado do ponto de vista de uma mulher que planeja envenenar a jovem estudante com quem o marido estaria (ela acredita) tendo um caso. Mas será que a traição existe realmente ou é paranoia da mulher?

Se tem uma coisa que une os contos, é que todos os narradores são pra lá de não-confiáveis. À medida em que as histórias se desenrolam, gradualmente vamos questionando a realidade do que está sendo dito.

O narrador de “Sign of the Beast” sofre bullying na escola e tem um relacionamento de amor e ódio com uma professora. Ela é assassinada, e ele confessa o crime. Mas será que cometeu mesmo?

A mais bizarra é “The Experimental Subject”, em que um cientista se aproveita de uma universitária ingênua para fazer uma experiência grotesca: inseminá-la com o sêmen de um chimpanzé, na esperança de produzir um híbrido…

O conto que dá título à coleção, “Night Gaunts”, é uma homenagem explícita a Lovecraft. Reconta a juventude dele, principalmente o trauma da morte do pai, internado num hospício com o cérebro afetado pela sífilis.

São contos escritos com uma precisão de relojoeiro. Em muitos ela deixa o final em aberto, para que a imaginação do leitor complete a história.

Este mês ela publica lá fora um novo romance, uma distopia feminista. Hazards of Time Travel (Perigos da Viagem no Tempo) começa num futuro próximo, em que os Estados Unidos estão sob um regime patriarcal que considera que as mulheres têm QI inferior ao dos homens. Uma jovem estudante se revolta, e como punição é enviada ao passado, ao interior do estado de Wisconsin em 1959, para ser reeducada. Quem sabe, depois do sucesso de O Conto da Aia, alguma editora não se habilita a publicar por aqui?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: