A louca dos romances

 

 

Quando eu tinha uns 14 anos, descobri o maravilhoso mundo dos romances. Começou com uma comédia da Nora Ephron aqui, um livro do Nicholas Sparks acolá e quando dei por mim já estava lendo romances de banca escondida.

Mas a questão é: por que eu tinha que ler escondida?

Desde cedo eu conhecia a imagem negativa desse tipo literatura. Sabia que não seria levada a sério se as pessoas soubessem o que eu estava lendo. Que me chamariam de ridícula e fariam piadas.

Aí veio o meu “despertar feminista” lá pelos 18 anos, e começou um conflito interno enorme em mim. Os livros de que eu gostava retratavam casais brancos cisgêneros heterossexuais se aventurando em relacionamentos monogâmicos baseados numa ideia de amor ideal que está longe de corresponder à realidade. Como eu podia ser feminista lendo coisas assim? O que os outros iam pensar?

Basta ver o que se diz sobre livros como Crepúsculo e Cinquenta Tons de Cinza – e sobre as leitoras de Crepúsculo e Cinquenta Tons de Cinza. Quem gosta desse tipo de coisa não pode ser uma pessoa inteligente, não é? Só quem gosta disso são mulheres frustradas emocionalmente, que internalizam e reproduzem o sexismo, todo mundo sabe.

Mas deixa eu contar uma coisa pra vocês:

Ninguém é menos feminista por gostar de romances.

É claro que falta ainda diversidade – e MUITA! – no gênero romântico (assim como em todos os outros). E que muitos livros, especialmente alguns mais antigos, normalizam comportamentos sexistas e situações de abuso. Mas as coisas têm melhorado. Inclusive um artigo da Entertainment Weekly na semana passada falou justamente de como os romances têm trazido mensagens políticas importantes nesses tempos de resistência à onda conservadora nos EUA.

É muito saudável ver as coisas com um olhar crítico, buscando reconhecer esses aspectos problemáticos e tentando entender de onde eles vêm. Mas isso não significa que a gente não possa gostar das coisas. É perfeitamente possível reconhecer que Crepúsculo reforça estereótipos femininos negativos e romantiza situações de machismo mas ainda assim curtir a história.

Outro aspecto importante é não julgar as pessoas pelo tipo de entretenimento que elas consomem. Literatura é escapismo. Só porque uma mulher gosta de ler sobre um empresário multibilionário que tem um tórrido romance com uma universitária virgem regado a muito sadomasoquismo, não significa que ela seja uma fracassada desesperada e nem que queira um relacionamento assim. Ninguém acha que os fãs de Stephen King querem viver uma história de horror.

Aliás, o argumento de que romances transmitem ideias erradas às mulheres é bastante ridículo. É negar completamente a capacidade intelectual e o julgamento crítico delas. Querer determinar o que mulheres podem ou não ler é o suprassumo do machismo.

Então sabe aquele livro que você ama mas morre de vergonha? Aquele com o título meloso e o casal se pegando na capa? Pode parar de esconder. Se joga na Sarah MacLean, na Elizabeth Hoyt, na Julia Quinn e vai.

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