Mary Shelley (filme)

Por Mariana Fonseca e Raphaela Ximenes

 

Aos 17 anos, Mary Wollstonecraft Godwin deixou a casa de sua família para viajar pela Europa com seu amante, o poeta radical (casado) Percy Bysshe Shelley – com quem costumava se encontrar secretamente no túmulo de sua mãe, a autora feminista Mary Wollstonecraft. Acompanhados por Claire Clairmont, irmã adotiva de Mary, eles peregrinaram por uma França recentemente devastada pela revolução, lendo trechos das obras de Wollstonecraft e de outros escritores considerados subversivos na época. No ano seguinte, durante um verão chuvoso em Genebra com Lord Byron, Mary iniciou o que viria a ser a primeira obra de ficção científica da literatura.

 

Dirigido por Haifaa al-Mansour (a primeira mulher saudita cineasta) e com roteiro de Emma Jensen, Mary Shelley é a primeira cinebiografia da autora do clássico Frankenstein. Com Elle Fanning no papel principal, o longa traz também Douglas Booth como Percy Bysshe Shelley, Maisie Williams como Isabel Baxter e Tom Sturridge como Lord Byron.

É curioso perceber que o filme segue um caminho bem diferente ao de Mary. Enquanto ela procurou viver de forma livre e sem julgamentos, o filme se fecha em uma menina melancólica que se apaixona por um rapaz que mais parece um menino mimado do que um poeta charmoso, mesmo que mau caráter. O enfoque excessivo no romance entre Mary e Percy reduz toda a complexidade deste período da vida da autora, os rompimentos de relações e os conflitos ideológicos com a realidade da sociedade da época, a uma paixonite adolescente

Não há como saber onde surge o problema do filme. Ou Haifaa se prendeu a uma ideia romântica de Mary Shelley ou ela acaba sendo mais uma realizadora que vai trabalhar em Hollywood e precisa entregar exatamente o que pedem. O roteiro de Jensen está cheio de furos que podem ter aparecido na edição final deixando o filme enfadonho e confuso. A construção de personagens se faz em cima de estereótipos que ouvimos dizer sobre como teria sido Mary, Percy e Lord Byron. Parece que não houve pesquisa alguma sobre essas pessoas ou preocupação em criar personagens tridimensionais.

A tão famosa noite que levou Mary Shelley a criar sua obra prima é reduzida a uma noite de bebedeira, joguinhos de ciúmes e ainda apresenta um Lord Byron insuportável (mais do que ele deveria ter sido na verdade). O único ponto positivo desse momento, no filme, é o fato de criar um elo entre Mary e John Polidori que não existiu na realidade. Os poucos momentos entre os dois personagens criam uma dinâmica interessante no filme, mas que dura poucas cenas. O problema dessa amizade forçada é diminuir a importância de Mary, de parecer que ela só teve a ideia de escrever Frankenstein por causa de Polidori. Mesmo que o filme mostre, logo em seguida, que ela escreveu tudo sozinha, mas motivada pela dor de perder sua primeira filha e pela falta de atenção de Percy, motivações clichês que não deveriam estar em uma cinebiografia sobre Mary Shelley.

Um ponto interessante que o filme levanta é a discussão que surgiu na época (e que infelizmente alguns insistem em manter até hoje) sobre a real autoria de Frankenstein. Porém se considerarmos todo o trabalho que Mary fez sozinha para aprimorar e promover a própria obra e a do marido após a morte deste, é no mínimo irônico que o roteiro escolha colocar Percy como o grande defensor de Mary como autora.

Nem mesmo a boa atuação de Elle Fanning consegue salvar o longa. Fanning leva as únicas duas boas cenas do filme inteiro: dois diálogos sobre a obra-prima de Mary que se complementam. A primeira é quando Percy acaba de ler Frankenstein e questiona a esposa se não seria melhor um livro sobre um homem que constrói um ser perfeito, como um anjo, o que exemplifica com perfeição o homem hétero branco que não consegue enxergar além do seu privilégio e acredita que uma mulher não consegue retratar de forma correta outro homem como ele, sem perceber que Frankenstein não é sobre o criador e, sim, a criatura. A outra cena é quando Claire conversa com Mary sobre o livro e demonstra que ela sim entendeu que no fundo o livro é sobre abandono, sentimento que Mary carrega desde que nasceu e que traduz muito bem o que era ser uma mulher no início do século XIX.

A redução de Mary Shelley a uma adolescente sonhadora e de Percy a um poeta mimado, muito talentoso mas incapaz de manter um relacionamento sério ou um emprego, combinada com uma mistura de acontecimentos reais que são diluídos pelo filme de forma confusa, levam a uma obra medíocre sobre uma escritora que merecia uma produção mais focada em sua personalidade e não em seu relacionamento amoroso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: