Me Chame Pelo Seu Nome – filme

 

Baseado no livro de André Aciman, Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017, EUA/Itália) chega ao cinema, dirigido por Luca Guadagnino, com roteiro adaptado de James Ivory e está entre os grandes favoritos a concorrer ao Oscar, principalmente depois de Moonlight ter ganho ano passado, já que ambos têm como tema central um relacionamento gay.

Moonlight surpreendeu o mundo, no ano passado, ao ganhar o Oscar de melhor filme das mãos de uma Academia prioritariamente composta por homens brancos, de meia idade e heterossexuais, que, normalmente, têm grande dificuldade de sair do status quo. Mas o filme acabou fazendo história por falar sobre homossexualismo, de uma forma bem direta, de um homem negro que vivia em um bairro de baixa renda na Flórida. Sem dúvida alguma o filme de Barry Jenkins abriu um caminho para filmes como Me Chame Pelo Seu Nome.

Comento sobre Moonlight para fazer a ponte com Me Chame Pelo Seu Nome. Porém, o filme de Guadagnino tem alguns problemas, que, pelo visto, já ocorriam no livro. Nele, o jovem Elio (Thimotée Chalamet), de 17 anos, se apaixona pelo aluno de seu pai, Oliver (Armie Hammer), mais velho do que ele. Elio se aproxima de Oliver e no fim eles acabam tendo um relacionamento meio que escondido, já que, aparentemente, Oliver é bissexual não assumido.

Algumas críticas foram proferidas contra Guadgnino e Aciman por não serem gays, uma besteira, já que Jenkins também não é e conseguiu realizar um filme com uma sensibilidade enorme sobre o tema. Porém, entendi o ponto principal das críticas, principalmente a Aciman, a construção dos personagens é muito estereotipada, primeiro ponto que me incomodou nesse filme. Mas isso não significa que o filme me desagradou completamente, porque qualquer obra que fuja do convencional já me agrada de cara. O problema é que esse filme parece ser um filme gay para agradar heterossexuais que se incomodam com filmes gays. Enquanto Moonlight toca na ferida ao mostrar bem na cara o preconceito, Me Chame Pelo Seu Nome romantiza o fato de ser “só uma fase”, “só uma experiência”, conceitos que já deveriam ter sido superados em 2017/2018.

O filme de Guadgnino é muito bem construído, fechando sua trilogia do Desejo, que começou com o drama Um Sonho de Amor, de 2009, e com o suspense Um Mergulho no Passado, de 2015. Tem cenas líricas e belíssimas, que em momentos lembra “Beleza Roubada” de Bertolucci, com o mesmo clima lúdico, principalmente nas cenas que envolvem Elio com Oliver. Apesar da boa atuação de ambos atores, em alguns momentos achei as construções de personagens um pouco imaturas, principalmente a do Oliver.

Por mais que a história do filme aconteça na década de 1980, o que explica, um pouco, o medo de Oliver de se revelar como bissexual – e digo bissexual porque seu personagem se relaciona com mulheres também, por isso me recuso a rotula-lo como “confuso” – o livro foi escrito em 2007, o que parece ser um subterfúgio para esconder alguns preconceitos do próprio autor. O fato da diferença de idade entre Oliver e Elio também incomoda, ele romantiza a antiga história do menino que descobre sua sexualidade com um homem mais velho.

O ponto positivo desse filme é Elio, um jovem rapaz bem decidido, que tem um excelente relacionamento com os pais e não tem medo de seus sentimentos. Ele se sente inseguro em alguns momentos de uma forma bem natural para um rapaz da sua idade, se descobrindo sexualmente. Tudo isso é bem construído e colocado no filme, o que me faz pensar se Elio e Oliver não seriam metáforas sobre o mundo que vivemos, onde os choques geracionais são cada vez mais fortes, já que nossa sociedade se modifica a passos largos, todos os dias. Em 2016 nunca se pensaria em ter um filme com uma temática gay tão forte e honesta concorrendo e ganhando o Oscar. Em 2017 Isso aconteceu e agora nos encontramos em 2018 com um filme romântico gay, que foi, claramente, construído para o Oscar. Nesse cenário e voltando a metáfora do filme, Elio representa a geração que se sente muito confortável com sua sexualidade, que consegue lidar com todo o espectro de forma bem natural. Enquanto Oliver é a geração que veio logo antes, que conhece seus desejos mas ainda tem medo de nadar em águas desconhecidas, preferindo ter experiências seguras aqui e ali, mas sempre voltando ao que lhe é familiar.

Me Chame Pelo Seu Nome tem a seu favor a qualidade de abrir debates sobre sexualidade e tudo mais que segue essa questão. Ele ainda não está na corrida ao Oscar desse ano, mas ao observar todos os possíveis concorrentes desse ano, cada vez mais percebemos uma renovação na Academia que me enche de esperança.

Assista ao trailer do filme

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