Mulher-Maravilha

O filme Mulher-Maravilha é uma grande alegoria sobre o que é ser uma mulher em um mundo de homens. Realmente é preciso ser uma super-heroína e ele nos entrega a heroína que precisávamos. Um filme que me remeteu à fala da atriz Jessica Chastain, durante a coletiva de encerramento do Festival de Cannes de 2017, onde ela afirmou que ficou assustada com a forma como a mulher é retratada no cinema. Por isso me senti tão aliviada quando os créditos começaram a subir e percebi que a espera de quase 40 anos para ver a Princesa Diana de Themyscira na tela do cinema havia valido a pena.

Esse é um filme que já fez história antes mesmo de estrear, é a primeira grande produção (que custou quase 150 milhões de dólares) sobre uma super-heroína e dirigido por uma mulher, o que também é inédito. Patty Jenkins, de “Monster” é a responsável por levar a Mulher-Maravilha para o cinema. Ainda dentro do assunto discutido por Chastain, a atriz chegou à conclusão que a representação da mulher no cinema é tão equivocada porque existem poucas diretoras trabalhando atualmente. Por trás de grandes produções então, conseguimos contar em uma mão. A pioneira é Kathryn Bigelow com “K-19: The Widowmaker”, em 2002, e agora temos Jenkins com Mulher-Maravilha. Outro fato curioso, vamos dizer assim, é que levou 12 anos até Jenkins conseguir dirigir um filme para o cinema, mesmo com a ótima recepção que seu primeiro trabalho teve. Qualquer diretor independente que se destaque da forma que ela se destacou, ganha a oportunidade de dirigir alguma grande produção logo em seguida. Para Jenkins muito teve que acontecer para que ela ganhasse essa chance. Espero que percebam a tolice que é esse tipo de atitude, já que a diretora conseguiu fazer um ótimo trabalho. E dirigir o filme sobre a Mulher-Maravilha era um trabalho para uma mulher, sem dúvida.

E o filme? Ah, ele é o filme que os fãs da DC estão esperando desde “O Homem de Aço”. Ele conta a história de Diana, filha de Hipólita, Rainha das Amazonas, que vive em paz na paradisíaca ilha Themyscira, cercada por mulheres guerreiras. É seu desejo ser tão valente quanto elas, principalmente ao crescer ouvindo de sua mãe a história de como as Amazonas foram criadas por Zeus para ajudar a derrotar Ares e restabelecer a paz na Terra. Um dia Diana vê um avião de combate cair no mar perto da praia da ilha e nada até ele. Dos destroços ela salva o Capitão Steve Trevor e descobre que o mundo fora de sua ilha está em guerra. Ela passa a crer que aquela guerra significa que Ares está vivo e que é seu dever ir até o mundo dos homens combate-lo para restabelecer a paz, assim como as Amazonas fizeram no passado.

Diana é vivida pela atriz israelense Gal Gadot, uma escolha controversa, que só acalmou o coração dos fãs (e o meu) quando mostrou todo o potencial de sua personagem em “Batman V Superman”, estreia da Mulher-Maravilha no atual universo DC e ponta pé para o filme da “Liga da Justiça”(aliás, onde assina a petição para ele ser dirigido por Patty Jenkins?). Gadot vestiu com muita seriedade a nova armadura da personagem, mostrando total comprometimento com o papel, além do enorme carinho com os fãs. Sua Diana é suave e transita de menina para mulher com naturalidade durante o filme. Com certeza ela será uma excelente Mulher-Maravilha para a nova geração, assim como Lynda Carter foi para a minha. A relação criada na tela entre ela e o ator Chris Pine também é muito bem construída, com muito cuidado para não parecer gratuita e com momentos deliciosamente divertidos. O jeito livre e despreocupado de uma mulher criada em uma ilha sem pudores e julgamentos contrasta muito bem com o de um homem do início do Século 20, em que as mulheres não tinham direitos e os homens dominavam.

O que me chamou atenção na personagem foram suas atitudes em relação a um mundo tão machista, ela simplesmente não aceita, ou melhor, não toma conhecimento de que ele existe. O que, para mim, foi uma excelente decisão do filme. Ela é uma mulher com uma missão e mesmo que esse novo mundo seja bem mais hostil que o seu, ela não se dobra, apenas mostra sua força. Há um momento bem marcante, que achei que representa bem o fato de que em um mundo de homens uma mulher precisa sempre se provar melhor, e esse momento é quando Diana se revela como a Mulher-Maravilha. Ela tenta explicar que ela pode lidar com a guerra, que ela não vai mais assistir às pessoas sofrerem e que quer agir. Como ninguém aceita o que ela diz, ela simplesmente mostra tudo do que é capaz, e essa cena me trouxe lágrimas aos olhos, não apenas por ser a revelação da Mulher-Maravilha, como é a perfeita analogia ao fato de uma mulher precisar se provar melhor no mundo dos homens, mesmo ela sendo uma amazona guerreira indestrutível.

Olhando para trás, lembrando de outras heroínas em filmes de super-heróis, lembro de momentos que me decepcionaram, porque não adianta montar uma personagem com um background forte, como a Viúva Negra, por exemplo, e transforma-la em algo patético como acontece no filme “Os Vingadores 2”. Ou ter uma médica em pé de igualdade com o personagem principal, em “Doutor Estranho”, para no fim ela ser só a mocinha indefesa. Ou ainda a Arlequina, que é apaixonada por seu abusador, uma das personagens que mais me incomoda no mundo das HQs.

Quando anunciaram que o filme da Mulher-Maravilha aconteceria finalmente, como fã da personagem, desde pequena, me senti muito feliz e muito preocupada ao mesmo tempo. Como ela seria retratada, como seria seu relacionamento com Steve Trevor, tudo isso passou pela minha cabeça. Até ver o filme pronto e ficar satisfeita com o que foi realizado. A Mulher-Maravilha de Jenkins é sem dúvida nenhuma uma super-heroína, em todos os sentidos, mas acima de tudo ela é uma mulher como todas nós e perceber isso foi a minha maior alegria.

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