Nas ruínas da Terra – parte 1

Tudo aquilo que chamamos “casa” desmorona.

 

A tecnologia – a ciência, o tão desejado “progresso”, o excesso, a desmesura do consumo – se revela, mais uma vez, como o campo no qual inscrevemos algumas ansiedades, angústias e medos. Não se trata de um embate entre fobia e filia, entre atualizações e permanências. Trata-se, em última instância, de perceber as mudanças operadas a partir da emergência, aceleração e fabricação de um mundo cada vez mais digital, mais robótico… e desumanizado. Essa tecnologia participa de um projeto político de extermínio, exclusão e, obviamente, necropolítica.

Uma vez que se perde a dimensão do ‘humano’: ser alien, ser pós-humano, trans-humano, animal, anti-humano; ser alguma coisa que não.

Como exercer isso?

Estamos tão preocupados em morrer que esquecemos e obliteramos as potências de existir. De re-existir.

Devemos, então, (re?)apre(e)nder com o simpático e confuso robô do filme Wall-E (Andrew Stanton, 2008): escavar e ressignificar o lixo; reinventar os afetos em tempos de apocalipses.

Já vivemos entre montanhas de lixo, ondas coaguladas de resíduos das sociedades industriais; já vivemos sob a égide de um acúmulo excessivo – mas não apenas a prática de acumular; essa prática, agora, vincula-se ao desejo compulsivo de atualizações constante: dos sistemas operacionais, dos dispositivos, dos aparelhos, da matéria…

Simultaneamente, nada dura, obsolescência programada, a bateria acaba, a câmera falha – precisamos da imagem e do som perfeitos, como se nada houvesse entre nossos sentidos e a realidade; mas os objetos duram e permanecem no mundo, no planeta, na terra.

O plástico é a nova planta e as velhas plantam, ainda assim, crescem suas raízes e alastram seus corpos por dentro do concreto e do asfalto; a massa aquática ainda infla e arrasta as cidades… e, no meio dos destroços orgânicos, dos cadáveres, as garrafas de plástico bóiam como novos bichos que habitam todos os ambientes. O plástico é essa coisa sem forma que assume todas as formas, que serve para tudo… o plástico é o delírio inorgânico do mundo pós-industrial.

O império do plástico deixará filhos que irão se decompor depois que todos os nossos mitos desaparecerem.

A aceleração aumenta, a velocidade da locomotiva (atualizada, com novo design) aumenta – já não somos capazes de perceber sua presença. É tudo tão cruelmente veloz que não conseguimos alcançar qualquer freio que seja.

Vivemos entre ruínas: já nem sabemos, com nitidez, o que veio antes – se houve efetivamente um antes.

Vegetamos.

Novos monstros se alongam no horizonte – talvez nem tão novos assim. Nossas percepções se dilatam e compreendemos o brilho nefasto na ponta glacial dos icebergs: gigantescos monstros brancos, frios, cujos tentáculos se enraízam para além da superfície; corpos apavorados diante do calor excessivo dos trópicos… os saberes e poderes hegemônicos colapsam…

 

 

 

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