Nosferatu

Capa por Rafael Nobre – Editora Arqueiro, 2014.

“Nós os mortos cavalgamos velozes”

Esse verso da balada Lenore, de Gottfried August Bürger (1774), aparece em diversas narrativas que abordam a temática vampiresca – inclusive em Drácula (Bram Stoker, 1897). Lenore pode ser considerado como um dos textos fundadores da mitologia do vampiro moderno e contemporâneo. Sob a imaginação de inúmeras narrativas, o verso “mortos cavalgam veloz” transformou-se em “os mortos viajam depressa”, sendo desvinculado da experiência rural e atualizado para o contexto das cidades modernas.

Esse verso é a epígrafe de Nosferatu, de Joe Hill.

A partir dessa premissa, Hill (filho e herdeiro de Stephen King) tece uma curiosa trama que se alastra pelos Estados Unidos da América, ou melhor, por uma cartografia imaginária e perturbadora dessa terra de prazeres e horrores infinitos. O autor, por sua vez, atualiza e reinventa o conceito de ‘vampiro’ ao utilizar elementos que alimentam o imaginário patológico estadunidense: as paixões por carros (e motos) e transtornos mentais (podemos ler essa dupla como o fetichismo do consumo e das doenças), e a incessante busca pela felicidade plena e duradoura.

É através de um complexo e duradouro jogo de perseguições e assombrações que Hill faz soar um delicado alerta: a imaginação tem um custo. A criatividade, a fantasia, a possibilidade de produzir e fabricar outros mundos – tudo isso tem um custo. Sob muitos aspectos, um dos grandes temas de Nosferatu é que ficcionalizar é um processo doloroso, difícil e caro: as pessoas abençoadas ou amaldiçoadas com esse “dom” pagam, não raramente com suas vidas e/ou sanidade, por essa capacidade. Traumas, inadequações e estratégias marginais para a sobrevivência e administração da realidade são as redes que aproximam e distanciam as personagens.

“Vic contara que conseguia trazer sua ponte para este mundo, mas que de certa forma ela também só existia na sua mente. Isso parecia uma alucinação, mas só até você lembrar que as pessoas viviam transformando o imaginário em real: pegavam uma música que inventavam e gravavam, visualizavam uma casa e a construíam. A fantasia era sempre uma realidade esperando ser ativada, só isso.”

 

§

 

As narrativas vampirescas, muitas vezes, convocam as tensões das suas épocas: sexualidade e repressão, vida e morte, felicidade e ansiedades… Quais seriam, nesse sentido, as promessas da contemporaneidade? Em um mundo de instabilidades e desmoronamentos, a eternidade da fantasia (mesmo que seja uma fantasia deteriorada e monstruosa) surge como um desejo potente. Hill, nesse aspecto, revisita também a infame Terra do Nunca e seus dilemas éticos – nunca crescer, nunca envelhecer, nunca ficar triste… e, óbvio, os preços a pagar – afinal, estamos na era dos capitalismos ficcionais e afetivos. A promessa de felicidade eterna expande-se para um desgaste excessivo no qual tudo se torna exageradamente ‘engraçado’. Se não há mais limites, se as fronteiras que separavam os jogos binários e modulavam as noções de ‘ética’ estão erodidas, passamos a habitar em um mundo regido pelo delírio e pelo excesso – a Terra do Natal, uma ideia deturpada de felicidade.

Victoria McQueen, uma espécie de perturbada anti-heroína, precisa superar os traumas, fracassos e frustrações acumulados durante sua vida para salvar seu único filho das garras de Charles Manx – uma criatura vampírica, obcecada com o Natal e que se alimenta da vitalidade e humanidade de crianças. Hill também traz para seu estranho campo de batalha o imaginário do Natal, tão querido e problemático: há os que amam essa época e toda sorte de magia que ela evoca, e há aqueles que odeiam o Natal e seus símbolos, festividades, enfeites e luzes… Manx e McQueen são esses dois polos. Victoria trava, também, uma batalha interior – diagnosticada como esquizofrênica, ela vive entre a realidade que nos é imposta é a fantasia que abre para diversas possibilidades de existência.

Uma interessante jogada de Hill é modular o vampiro como um bizarro motorista de um Rolls Royce Wraith de 1938 – em inglês, a placa do carro e o título do livro é NOS4A2. Monstro e carro constituem uma entidade – alguém disse Christine?

Gabriel Rodriguez faz as ilustrações do livro. Em seu Deviant Art podemos ver outras ilustrações.

Em termos de ritmo e atualidade, Nosferatu prende a atenção mais pela dinâmica e velocidade, pelos cortes e capítulos curtos, do que por uma suposta densidade e profundidade das personagens. A potência de Hill descansa sobre o fato de ele ser um autor da sua geração e responder aos meios que o cercam: é fácil imaginar o livro tornar-se uma série audiovisual – não falta material…

Nosferatu, assim como Drácula, é uma bizarra road trip pelas estradas impossíveis da imaginação e do imaginário, através de atalhos soturnos que podem nos conduzir às experiências mais aterradoras, sublimes ou destruidoras; é uma narrativa sobre memórias: tanto as que guardamos com carinho como as que odiamos – mas estão lá, definitivamente costuradas na trama das nossas próprias narrativas.

 

Observação pessoal – e com spoiler:

Gosto de Victoria McQueen. Acho uma personagem potente. No entanto, há um moralismo punitivo no final da narrativa que não me agrada. É fácil adivinhar – ou imaginar – que Vic irá morrer, mas confesso que nutri esperanças que Hill fosse virar a narrativa para outro caminho. Mas não. Quem sobrevive, no final, são os dois homens por quem Vic dá a vida: o não-marido e o filho. Não me parece um final atraente nem muito político – considerando que o livro foi lançado em 2013… A não ser que Hill tenha desejado fazer, também, uma crítica social e pensar a mulher como esse campo constantemente questionado, perseguido e, no final das contas, que se auto-sacrifica para os homens. Não me parece o caso.

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