O Artista da Faca

Quando fui ao cinema para ver “Trainspotting” pela primeira vez, lá no fim da década de 1990, eu não tinha ideia de qual seria minha experiência e hoje, quase 20 anos depois, ele apenas não é um dos meus filmes favoritos, como Irvine Welsh se tornou um dos autores que acompanho a carreira avidamente, livro atrás de livro. Renton, Sick Boy, Spud e Begbie se tornaram amigos que acompanho desde então. Parece que Welsh não consegue deixar esses personagens para trás, ainda bem, eles reaparecem em mais dois livros do autor: “Skagboys” e “Porno”. Agora ele decidiu nos contar o que aconteceu com Begbie desde a última vez que o personagem esteve preso.

Begbie sempre foi um personagem violento, praticamente visceral. Ele sempre teve raiva do mundo, nunca pareceu se importar com ninguém ou, talvez, se importar muito. Sem papas na língua, sem se importar com o modo de falar ou com o mundo a sua volta, Begbie é o personagem que amos odiar, e por mais que Renton e Sick Boy sempre fossem os “heróis” dos livros que aparecem, Begbie era o contraponto necessário, a força primordial que trazia tensão às histórias e à vida dos outros personagens. Uma de suas características mais marcante era o sotaque escocês pesado, a falta de tato em relação a qualquer coisa, carregado de preconceitos, que só não era caricato, porque nos anos 1990, Begbie era um personagem muito real.

Uma das características mais marcantes de Welsh é falar da Escócia, principalmente de Edimburgo, de uma forma muito realista. Seus personagens falam com o dialeto local, e retratavam a realidade que o próprio autor viveu. Mas, Irvine Welsh foi morar na Califórnia e essa forma crua de contar história mudou. Claro que amadureceu também, mas amadureceu de uma forma polida, que causa estranheza. E é esse amadurecimento que aflora em “O Artista da Faca” (Editora Rocco, 2018, tradução de Ryta Vinagre).

Begbie agora é Jim Francis, um homem de cinquenta anos, que mora na Califórnia com uma esposa vinte anos mais nova, que foi sua conselheira na prisão. Tem duas filhas pequenas e uma vida perfeita. Sua esposa não faz ideia sobre seu passado violento, porque agora ele é um pai exemplar e um artista plástico que desconta sua violência nas suas obras. Jim conseguiu ficar famoso com suas obras e tem uma vida confortável, quando recebe a notícia que seu filho mais novo com June, Sean, que ficou para trás na Escócia. Sean foi assassinado e Jim precisa voltar a Edimburgo para o enterro do filho.

Begbie ainda está presente em Jim, como fica claro quando sua família perfeita é ameaçada por alguns homens na praia. Mas ele ganhou um refinamento que parece falso. Já em Edimburgo todos esperam que Jim se vingue de quem matou seu filho, afinal Begbie nunca deixaria isso barato. Mas Welsh decidiu que precisava redimir Begbie e Jim Francis é um homem amadurecido, que ainda tem traços violentos em si, mas também tem uma nova moralidade. Ao mesmo tempo não é gratuita essa moralidade que o personagem ganha, enquanto Jim precisa voltar para seu país natal, ele lembra de sua infância com um avô violento que ajudou a moldar quem ele é. A redenção de Begbie não é bem uma redenção, mas uma forma de ele fazer as pazes com ele mesmo.

Pode incomodar quem está acostumado aos livros de Welsh sem moral e com um humor ácido. “O Artista da Faca” é um livro bem mais maduro, mas, assim como Begbie, o velho Welsh está ali. Ainda há acidez, mas bem menos cinismo. Foi uma boa experiência ver Begbie amadurecer, ver a escrita de Welsh ficar menos nervosa e mais bem estruturada. É revigorante ver um autor que você gosta conseguir se desligar da forma antiga sem perder a essência e te mostrar que ele está pronto para novas experiências.

Pode incomodar quem está acostumado aos livros de Welsh sem moral e com um humor ácido. “O Artista da Faca” é um livro bem mais maduro, mas, assim como Begbie, o velho Welsh está ali. Ainda há acidez, mas bem menos cinismo. Foi uma boa experiência ver Begbie amadurecer, ver a escrita de Welsh ficar menos nervosa e mais bem estruturada. É revigorante ver um autor que você gosta conseguir se desligar da forma antiga sem perder a essência e te mostrar que ele está pronto para novas experiências.

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