O dia depois de amanhã

Fiquei um tempão debatendo comigo mesma sobre o que deveria ser essa coluna. Me apegaria ao mundo dos livros onde podemos mergulhar e esquecer do que nos cerca ou levantaria a cabeça da página e falaria sobre o que vivemos? Escolhi a segunda opção. Estamos em pleno período eleitoral e seria uma violência contra mim mesma falar sobre outro tema.

A política é a arte ou a ciência de organizar e administrar e isso implica em conversar e articular com os diferentes. O que vemos aqui no Brasil, e no mundo hoje, é a reprodução ampliada do mundo da bolha que as redes sociais possibilitaram, ou seja, conversamos apenas com quem pensa e age como nós e nos tornamos alheios a tudo que nos é diferente seja em comportamento seja em pensamento. O prolongado viver dentro da bolha faz com que acreditemos que o mundo é assim como concebemos. Quando somos confrontados com a diferença ela nos choca e, muitas vezes, não sabemos como encara-la. É exatamente quando nos deparamos com o que nos é estranho, que os problemas realmente começam. É nesse momento que o ser humano, muitas vezes, reage com medo e esse medo pode, e muitas vezes, leva ao ódio cego. É um mecanismo de defesa natural, se ataca antes de ser atacado, não se tenta entender o outro, ele é diferente logo não pertence aqui, deve ser extirpado para que eu possa voltar a minha zona de conforto onde todos são como eu.

Nosso crescente isolamento em bolhas faz com que percamos a nossa capacidade de lidar com as diferenças e isso transborda para a política. Deixamos de ter adversários e passamos a ter inimigos. A diferença entre os dois? Adversários se vence dentro das regras estabelecidas, inimigos eliminamos. Na política precisamos de diversidade, qualquer sociedade é feita de muitas realidades e todas elas devem ser representadas e ouvidas, não eliminadas. Precisamos reencontrar a nossa capacidade de dialogar, de compreender o que motiva o outro e o que nos motiva. Nos compreendemos melhor quando somos desafiados e isso só ocorre quando somos confrontados com o que desconhecemos.

Do dia 29/10 (dia seguinte ao segundo turno) em diante estaremos todos no mesmo barco, teremos um novo governo que pode ou não ser o que queríamos. O que determinará o que viveremos é que atitude teremos daqui em diante. Continuaremos fechados em nossas bolhas, incapazes de dialogar com o próximo? Culparemos sempre o outro pelos problemas? É passada a hora de sermos capazes de fazer política no nosso dia a dia, de conseguirmos conversar e articular com os divergentes de nós. Temos que lutar diariamente para encontrar pontos de convergência mesmo que tênues.
Política democrática deve ser feita todos os dias, nos cabe abaixar nossas armas, destruir nossos muros, estourar nossas bolhas e olhar em volta com mais atenção e nos abrirmos ao diálogo, por mais custoso que isso seja. Nos cabe também, independente do vitorioso nas urnas ser o nosso candidato ou não, cobrar e fiscalizar diariamente, se fazer ouvir sempre, sermos os fiscais do ocorre no nosso bairro, na nossa cidade, no nosso estado e no nosso país. A política é feita por aqueles que se apresentam e todos nós temos sido bastante omissos.
Para que nossa democracia se fortaleça precisamos reaprender a dialogar com os que nos cercam  para que em um futuro, espero que próximo, isso se reflita em nossas representações governamentais. O dia seguinte e como nos comportaremos pelos próximos anos é tão ou mais importante do que como votaremos no dia 28.

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