O Drible

Um ótimo livro sobre futebol, uma raridade

Já virou lugar comum dizer que é incrível, em um país como o Brasil, termos tão poucos, quase nenhum, romance que tenha o futebol como tema. “O Drible”, de Sergio Rodrigues, não é um romance sobre futebol, mas o esporte está lá e é importante na história, uma boa história que mistura ditadura militar, a era de ouro das crônicas esportivas e uma complexa relação entre pai e filho.

A abertura do livro é linda, fala sobre um dos gols que o Pelé não fez na Copa do México em 1970. É o gol do drible da vaca, quando o Pelé joga a bola de um lado e corre pelo outro do goleiro, é um daqueles lances que mesmo o mais desinteressado por futebol já viu. A descrição do lance tem o tom das antigas crônicas esportivas, aquelas crônicas que fizeram do futebol brasileiro um grande futebol, aquelas crônicas que imortalizaram jogadas e jogadores.

Depois de uma abertura futebolística vamos a real historia, a relação de Murilo Filho, um antigo cronista esportivo, e seu filho Neto. A relação entre os dois é dissecada em capítulos que se intercalam entre o livro que Murilo escreve sobre uma promessa do futebol que nunca se realizou, Peralvo, e capítulos contados, em primeira pessoa, por Neto sobre ser criado por Murilo depois que sua mãe, Elvira, se matou.

A relação de pai e filho se limita aos domingos na serra com croquetes da Pavelka, pescaria e Murilo falando sobre futebol. Os monólogos de Murilo sobre futebol tem o saudosismo de todo mundo que gosta do esporte, são monólogos que se pode encontrar, em doses menos radicais, em qualquer mesa redonda de futebol na televisão brasileira. As historias que Murilo conta e algumas lembranças de Neto tem personagens famosos como Nelson Rodrigues e seu irmão Mario Filho. Essas páginas aumentaram a minha vontade de ler “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho, um clássico sobre o futebol nacional.

Voltando ao livro, Neto não tem o menor interesse em futebol. Enquanto o pai fala sobre futebol e lhe entrega o manuscrito sobre a vida de Peralvo, o jogador que seria maior do que Pelé, Neto relembra sua relação com o Pai, sua complicada relação e tenta entender o suicídio da mãe. Os capítulos de Neto são repletos de referências a cultura pop que dão um tom atual ao personagem. Nada parece unir os dois mesmo que Neto tenha suas referencias culturais nos mesmos anos, décadas de 1960 e 19670, que formaram o auge da carreira do pai no futebol, vivem com a cabeça nas mesmas décadas mas não conseguem encontrar um ponto de convergência.

A historia toma um rumo de surpreendente do meio para o final, não darei spoilers aqui, só direi que é um bom final, um final bem conduzido que fecha essa relação entre pai e filho, liga as duas pontas da vida como diz Murilo em um de seus monólogos. É uma ótima leitura para os que gostam e para os que, como Neto, são indiferentes ao futebol.

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