O paradoxo do escapismo

Existe diferença entre escapismo e imersão? Qual seria? Maturidade? Período da vida? Idade? Eu diria que só essas…

Quando a gente é criança quer escapar, fugir, viver uma fantasia ou ler sobre a fantasia de alguém para não ter que lidar com a nossa realidade… coisas assim. Quando adultos há momentos em que queremos fugir e escapar da realidade também, principalmente num momento difícil em que o escapismo parece ser a melhor forma de esquecer os problemas. A questão é que a gente nunca escapa. A gente não esquece, nem “distrai” a cabeça. Pelo contrário, a gente imerge e penetra ainda mais no que é nosso e em quem somos.

A gente lê sobre piratas, bruxas, fadas, magos, varinhas, vampiros e viagens na velocidade da luz, porque são interessantes e diferentes do que vivemos no dia a dia, daquela rotina que às vezes cansa. Mas a verdade é que buscamos em toda e cada leitura personagens, histórias e momentos com os quais nos identificamos, procuramos sempre, ainda que de vez em quando de forma inconsciente, soluções para os nossos problemas nas dificuldades que os outros estão enfrentando. Comparamos as nossas realidades, julgamos atitudes e relacionamentos, o que nos faz refletir e adentrar nossas mentes muito mais do que faríamos se não estivéssemos dispostos a ler.

A verdade é que a gente desenvolve muito mais empatia quando tenta “escapar”. A gente aprende muito mais sobre o olhar do outro ao “fugir”. Enquanto estamos “fugindo” nas histórias que lemos, estamos na verdade “encontrando” as respostas que sozinhos às vezes não encontramos. Estamos encarando nossos problemas com um outro olhar. Por ser durante um momento nosso, de “distração”, entretenimento, de reflexão e imaginação, nosso confronto é muito mais sutil e, ao mesmo tempo, vertiginosamente penetrante.

Quando eu penso em leitura, escapismos e imersão inconsciente eu lembro muito do filme Inception (vocês devem ter visto, com o Leonardo DiCaprio, se não viram, pelo amor, vão assistir!). Pra mim, a pessoa que diz que tá lendo para escapar de algo mal sabe que, na verdade, aquele texto está provavelmente implementando uma ideia lá no fundo do inconsciente dela, e que essa ideia vai crescer com tanta força que, talvez, a faça decidir coisas, desistir de coisas ou até mesmo tomar coragem para fazer coisas. Mas a ideia, camuflada por uma cegueira escapista, se enterra tão fundo na raiz dos pensamentos, que a pessoa jamais fica sabendo que foi um momento de escapismo o responsável pela solução de grandes problemas.

É o paradoxo mais lindo que existe.
Você escapa para na verdade enfrentar.

Se isso é uma filosofia barata de bar ou não, eu não sei, só espero que ao ler esse texto, mesmo que tenha sido para escapar de alguma rotina chata, alguma coisa tenha despertado em você para que você aproveite seu momento de imersão e isso te ajude de alguma forma.

Ps. É por isso que não concordo quando dizem que literatura jovem é superficial e escapista. Pra mim, é exatamente o contrário disso. A gente só tende a se conectar cada vez mais; com os outros e com a gente mesmo.

Bom fim de semana, leitoras e leitores, e parabéns para mim, que celebro muitos anos de vida no próximo dia 4. Adoro aniversários, podem mandar parabéns pelo Twitter ou Instagram. <3

#Fui

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