O pássaro do bom senhor

O_PASSARO_DO_BOM_SENHOR“O pássaro do bom senhor” é daqueles livros que te arrebatam logo de início. Contado por um ancião que lembra a sua infância, a narrativa trata da história de Henry Shackleford, um menino escravizado no território do Kansas em 1856, e sua relação com John Brown, figura real da história norte-americana, um conhecido abolicionista que vê na insurreição armada o único caminho para a libertação dos escravos.

Na história há um misto de ficção e realidade, e podemos perceber um retrato que o autor faz do que foi o país dividido entre os que são contra e os que são a favor da escravidão. Henry, um menino de cerca de uns 10 anos (ele não sabe a sua idade ao certo, característica entre os escravos) à época em que a história começa, era negro e escravo, morador do Kansas e acaba tendo sua vida ligada a de John Brown, quando o homem branco que lutava pela abolição da escravatura aparece na barbearia em que o pai de Henry trabalha e ocasiona uma enorme confusão. A discussão termina com várias trocas de tiros e com a morte do pai de Henry. A seguir Brown leva o menino consigo, com o argumento de que o está libertando (ou seria sequestrando?). No meio de tudo isso, John Brown toma Henry por uma menina, a criança, com muito medo de enfrentar qualquer um, aceita isso como verdade e passa a viver desta forma.
Logo Henry se torna Henrietta ou “cebola” (a origem do apelido é bastante inusitada), que rapidamente se torna um amuleto da sorte do velho (se bem que nem sempre eles tem tanta sorte assim). E Cebola, que só queria mesmo era fugir e voltar pra casa, acaba tendo que acompanhar Brown e seu bando como uma forma de proteção, porque à época um negro que se envolvesse com movimentos abolicionistas corria sério risco de ser morto. “Libertado” sem pedir, envolvido sem querer, e sem ter muito para onde ir, Cebola acaba seguindo o fluxo do destino que lhe é imposto.

Se na realidade ele também era assim ou se foi exagero da ficção eu já não sei, mas Brown é um personagem meio alucinado, que acredita ter uma missão divina, um ser meio caricato, meio fanático, que faz muitos, muitos discursos. Na maioria das vezes é interessante e divertido, mas às vezes tende muito para o exagero mesmo. A história por vezes toca em questões delicadas, como a falta de valorização pessoal e até mesmo a falta de noção de liberdade. Em alguns momentos vemos Cebola achar que sua vida era melhor quando ele era escravo, ao menos ele tinha onde morar e o que comer. Mesmo o fato de ele permitir que Brown o tome como menina é por uma questão de conforto e sobrevivência, pois desse jeito ele não precisa fazer trabalhos pesados ou participar de enfrentamentos com o bando. O que vemos é um menino acoado pelas pressões do mundo, que tem pouca noção de liberdade e dignidade, e que se importa mais é com continuar vivo e e tentar ter um certo grau de conforto. O livro rememora esse período sombrio da história mundial e deixa claro que não bastava simplesmente libertar os negros, mas que era necessário lhes dar oportunidades de existir com dignidade e respeito dentro da sociedade. Ideais que até hoje não alcançamos plenamente.Apesar de a história se passar lá pelos idos do século XIX, a linguagem do autor James McBride é bastante informal e fluída, o livro é, inclusive, bastante divertido,  mas também emocionante em alguns momentos, daqueles que quando você percebe já chegou ao fim da história,. O livro ganhou o National Book Award de 2013, e a edição por aqui é da Bertrand Brasil, que por sinal fez um trabalho bem bom no quesito capa e diagramação, apesar de ter uns errinhos de revisão.Quando peguei “O pássaro do bom senhor” para ler eu sabia que ele tratava de um período real e sombrio da história norte-americana, mas não sabia que ele incluía personagens que existiram de verdade, acabei descobrindo porque a história me instigou tanto que fui dar uma pesquisada. Isso também foi bom, adoro livros que nos fazem querer saber mais, acaba sendo uma forma de autoconhecimento e de conhecimento da trajetória da nossa sociedade. Para se divertir, para conhecer uma parte da história do movimento abolicionista nos EUA e mesmo para refletir, “O pássaro do bom senhor” é uma ótima pedida.

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