Oceano no Fim do Caminho

Neil Gaiman transcende sua obra e se torna um gênero com O Oceano no Fim do Caminho

ocenaoÉ comum, e até esperado, que autores tenham marcas registradas quando se trata de seu ofício. Seja na construção de personagem ou no estilo narrativo, um bom autor pode ter seu nome apagado da capa do livro e, mesmo assim, poderá ser identificado por seus leitores como autor daquela obra, levando em conta seu conteúdo. Mas existem alguns autores que vão além e que transcendem sua obra, tornando-se quase que um gênero em si. Neil Gaiman é um desses autores.

“O Livro do Cemitério” (“The Graveyard Book” – editora Rocco) é o meu favorito de Gaiman e o primeiro que li. Adoro temática gótica e assustadora e Gaiman conseguiu escrever uma história comovente, misteriosa, linda e assustadora – tudo ao mesmo tempo – sobre um bebê que escapa do assassino de sua família e é criado por fantasmas em um cemitério próximo. Em “O Oceano no Fim do Caminho” (Editora Intrínseca), o autor britânico se supera.

A história de “O Oceano no Fim do Caminho” é simples: um narrador sem nome volta para sua cidade natal para um funeral e, durante sua curta estadia, passa a relembrar sua infância e como os acontecimentos o impactaram.

Não sabemos o nome do narrador, apenas que tem por volta de seus quarenta e muitos anos e está em crise: divorciado, com problemas profissionais, filhos crescidos e desinteressados. Em suma: os maiores e mais comuns medos de qualquer adulto. Ao divagar, o narrador se encontra na propriedade da Família Hempstock, três gerações de mulheres que moravam no final da sua rua. O narrador entra na casa e começa uma conversa com uma das mulheres mais velhas e aí a história engrena de forma inesperada.

A narrativa muda e somos levados para o fundo dessa história pelo mesmo narrador, mas agora com sete anos. E a linguagem de Gaiman vem com mais força, repleta de inocência e mistério e mistérios que só gente inocente tem a capacidade de desvendar.

Enfrentando problemas financeiros, os pais de nosso – agora jovem – narrador alugam seu quarto, fazendo-o dividir o outro com sua irmã mais velha. Um dos inquilinos, um minerador de opalas, ao não conseguir pagar dívidas de jogo, rouba o carro do pai do narrador e comete suicídio dentro do mesmo, estacionado no fim da rua (que, aliás, foi baseado em uma experiência real da infância de Neil Gaiman). A situação é descrita de maneira forte, porém pelo ponto de vista de uma criança que ainda não entende por completo a brutalidade dos acontecimentos, o que faz deles ainda mais impressionantes.

A morte do inquilino dá início a uma sucessão de complicações sobrenaturais – algo que, até então, não havia aparecido no livro. Então, o jovem narrador vira amigo de Lettie Hempstock, a mais jovem (porém, alguns anos mais velha do que ele) da família que mora no final da rua. É ela quem afirma, com toda a certeza, que o lago que fica atrás de sua casa é um oceano. Daí o nome do livro. No início parece coisa de criança, na linha de transformar caixotes em “fortalezas”. Mas será? Lettie é especial e ajuda nosso narrador a se livrar e se proteger de uma criatura nada boazinha, que toma conta de sua nova babá, Úrsula, e que se aloja dentro de seu coração. Parece confuso, mas não é. Eu é que não quero entregar muito da trama. A culpa é minha, não de Neil Gaiman.

“O Oceano no Fim do Caminho” continua e conta a jornada do narrador, ainda com sete anos, contando como foi essa aventura e, ao relembrar, questiona algumas coisas. Mas a grande questão – tudo isso realmente aconteceu? Existia uma criatura sombria que fez o pai do narrador cometer atos absurdos ou essa fantasia foi criada pelo narrador para conseguir lidar com tamanha atrocidade? – permanece com os leitores.

E por isso voltamos para o fato de que Neil Gaiman não é apenas um autor, é um gênero. Se fosse de qualquer outro autor, leitores saberiam com certeza a resposta para esses questionamentos. Mas como se trata de Gaiman, ambos os cenários são possíveis, até mesmo uma combinação dos dois. E o mais interessante, o resultado do talento da Gaiman com palavras, é que não importa. Não importa se foi real ou não. O que importa é que história é sombria e leve, triste, melancólica, mas com esperança de que, no futuro, algo possa melhorar. E isso é a marca de Neil Gaiman. Sua criatividade, seu talento com palavras, é um verdadeiro oceano.

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