Octavia Butler

Hoje temos um grande grupo de escritoras negras de fantasia e ficção científica. Pra citar só algumas: Nalo Hopkinson, Tomi Adeyemi, Nisi Shawl, Nnedi Okorafor, e N. K. Jemisin, a tricampeã do Hugo de quem já falei muito aqui. Mas todas devem muito a uma pioneira.

Octavia Butler tinha tudo contra ela. Nascida em 1947, filha de um engraxate e de uma empregada doméstica, ainda tinha dislexia. O pai morreu quando tinha sete anos. Pasadena, na Califória, não era o pior lugar nos Estados Unidos, mas mesmo assim enfrentou um racismo que às vezes começava dentro de casa. Uma tia tentou explicar de modo gentil: “Queridinha, negros não podem ser escritores.”

Com a mãe, empregada doméstica

Mas ela insistiu. Depois de assistir ao filme B “Garota Diabólica de Marte”, se irritou profundamente porque sabia que era capaz de escrever coisa bem melhor.

Conseguiu se formar e ganhou uma bolsa para um curso de roteiristas, onde conheceu um escritor que se tornaria uma espécie de mentor dela, Harlan Ellison. Por recomendação dele, se inscreveu na prestigiada oficina Clarion para escritores de ficção científica. Lá, aprendeu com Samuel R. Delany, que era praticamente o único negro escrevendo FC na época.

O primeiro romance, Patternmaster, já questionava relações de poder, ao falar de uma sociedade futura altamente estratificada, dominada por telepatas. O sucesso da série que se seguiu permitiu que ela se dedicasse a escrever em tempo integral.

Depois de passar anos vendo a mãe entrando e saindo de casas pelas p

ortas dos fundos, resolveu “escrever um romance que fizesse os outros sentirem a história: a dor e o medo que os negros tiveram que superar para sobreviver.” O resultado foi Kindred – Laços de Sangue (Morro Branco, trad. Carolina Caires Coelho). Uma jovem negra volta no tempo e tem que salvar branco, dono de escravos – que era antepassado dela, tendo estuprado uma de suas escravas.

Vieram prêmios Hugo pelo brilhante conto “Speech Sounds” em 1983 (as pessoas perdem a capacidade de expressar e compreender palavras), e no ano seguinte mais um Hugo e um Nebula por “Bloodchild”.

Na duologia A Parábola do Semeador (Morro Branco, trad. Carolina Caires Coelho) / A Parábola dos Talentos, ela fala de um colapso quase total da sociedade, e das tentativas de recomeçar que esbarram no autoritarismo e na intolerância.

Despertar, que sai este mês (trad. Heci Regina Candiani), é o começo de outra série, Xenogênese ou Os Filhos de Lilith. Nela, volta a seus temas de poder e hierarquia. A raça humana, praticamente extinta, é salva por uma raça alienígena, altamente avançada, mas também fisicamente repugnante. Os salvadores querem em troca que os humanos aceitem uma fusão biológica, produzindo uma nova espécie. Ava DuVernay, diretora de Selma e Uma Dobra no Tempo, vem tentando desenvolver uma série para TV.

Seu último romance foi Fledgling, em que imagina uma raça de vampiros vivendo em simbiose em meio à sociedade humana.

Em 2006, teve uma queda em casa e um derrame, e morreu prematuramente aos 58 anos. Mas deixou um legado e abriu as portas para gerações de novas escritoras.

 

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