Oryx e Crake

O Homem das Neves há muito tempo deixou sua vida civilizada pra trás e agora vive no bosque, dorme em cima das árvores, entre insetos e animais modificados geneticamente, não usa roupas, apenas se envolve em lençóis velho, se alimenta do que encontra e convive com seres que parecem ser bem mais evoluídos, que ele chama de Crakers. Essa é a realidade criada por Margaret Atwood para o primeiro livro da trilogia MaddAdão, Oryx e Crake (Editora Rocco, 352 páginas, tradução de Léa Viveiros de Castro).

Esse Robson Crusoé moderno, conhecido pelos Crakers como Homem das Neves, um dia já foi Jimmy e vivia em um mundo moderno, em um futuro bem próximo ao nosso, mas dentro de uma realidade distópica, onde as grandes corporações tomavam conta do mundo, criando complexos fechados, seguros, cidades dentro de cidades, para proteger aqueles que trabalhavam para eles. O Homem das Neves vive em mundo após daquele protegido, o mundo chegou ao fim, prédios abandonados dão lugar a plantas e animais, em um mundo pós-apocalíptico que foi criado como uma forma de Atwood criticar o mundo que vivemos atualmente, mas que está muito próximo do que realmente pode acontecer.

Enquanto lamenta e aceita seu destino, o Homem das Neves relembra sua vida passada, desde o início da adolescência até o fim de tudo. De como era viver em um Complexo protegido e longe da plebelândia, onde os menos sortudos viviam. Como boa parte dos recursos naturais da Terra acabaram e as grandes corporações tentavam recriar tudo artificialmente, ao mesmo tempo que tentavam aumentar a expectativa de vida daqueles que podiam pagar por seus produtos. Através desse personagem nada simpático, completamente cínico em relação à sua realidade, ao mesmo tempo que quase apático, Atwood conta sua história costurando o agora, o mundo pós-apocalíptico, onde parece não haver mais nenhum ser humano vivo próximo ao Homem das Neves, ao mundo de antes, onde Jimmy viveu. Um mundo já decadente, com uma ciência que trabalhava em prol do lucro, através da genética, modificando animais, plantas, comidas, doenças, pessoas e até construindo uma nova raça.

Apesar de ter características de um thriller, esse é um livro difícil, pesado, com um olhar bem pessimista de Atwood sobre o mundo. O olhar cínico e derrotista do Homem das Neves, narrador do livro, mostra a genialidade da autora, porque aquele claramente é um homem que nunca conseguiu ir além da sua mediocridade e que se ressente muito da vida que teve, pelo menos parece. Sua raiva quase infantil do mundo, construída a partir do relacionamento dos pais, da fuga da mãe, se transforma em admiração e depois inveja de seu amigo Crake. Além do amor reverencial que ele nutre por Oryx. Crake é um rapaz que se acha muito melhor do que o resto do mundo, com uma inteligência além do normal e que consegue estudar na melhor faculdade e depois ter o melhor emprego. Oryx é uma mulher que viveu muito, sofreu muito, mas não deixou sua alma se corromper. Crake e Oryx se tornam divindades no mundo pós-apocalíptico do Homem das Neves, deuses adorados pelos Crakers, que tem uma visão muito simplória do mundo.

Oryx e Crake discute muito além dos perigos da ciência especulativa em prol do lucro puro. Ele discute a importância das relações pessoais, da necessidade da cultura em um mundo dominado pela tecnologia e qual o verdadeiro papel da religião, se ela foi incutida em nosso imaginário ou se nós a criamos para amenizar nossas vidas. Todas as questões levantadas pelo livro, direta ou indiretamente são atuais, são possíveis e são assustadoras. Atwood cria um cenário desesperador para discutir qual é o verdadeiro papel da humanidade em relação ao mundo que vive. Quase não há esperança, mas é preciso lembrar que esse é apenas o primeiro livro de uma trilogia.

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*A imagem usada no destaque é uma ilustração inspirada no livro Oryx e Crake de Jason Courtney.

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