Pantera Negra

A Marvel começou a onda de filmes de super-heróis com o pé direito, quando lançou em 2008 “Homem de Ferro”. Ali ela acertou o tom de como essas histórias deveriam ser contadas. Dez anos se passaram e vimos a DC tentar seguir pelo mesmo caminho, sem acertar muito o tom, mas que conseguiu chamar atenção pra questão da representatividade dentro desse universo com “Mulher-Maravilha”. Meninas do mundo inteiro se viram representadas e que podiam também ser super-heroínas.

Por mais que “Mulher-Maravilha” tenha tocado meu coração, ele ainda tem problemas, no terceiro ato, principalmente por causa de um vilão fraco, problema de 90% dos filmes do gênero, mesmo os da Marvel. Chegamos a 2018 e o momento certo para lançar no cinema uma superprodução sobre um super-herói negro, empoderado, longe de todos os estereótipos que poderiam estragar um filme desse porte. Pantera Negra (Black Panther, EUA, 2018) é o filme que precisávamos no momento mais certo possível. Além de tratar de um assunto que merece ser falado a exaustão, a questão de ser negro nos EUA, a produção nos dá uma aula sobre a riqueza cultural da África.

Baseado na HQ homônima criada por Stan Lee e Jack Kirby, Pantera Negra parte da morte do rei T’Chaka durante o filme “Capitão América: Guerra Civil”, para mostrar como seu filho T’Challa (Chadwick Boseman) se tornou rei de Wakanda, um país escondido no coração da África que aprendeu a manipular um metal alienígena chamado vibranium, por milhares de anos, por isso é um país próspero detentor de uma tecnologia extremamente avançada. T’Challa descobre que seu país está dividido em relação às suas decisões sobre como governar e enfrenta uma rebelião pelo trono ao mesmo tempo que precisa proteger Wakanda do resto do mundo.

Um dos grandes trunfos desse filme é ter um vilão que não é um vilão. Enquanto T’Challa e sua irmã Shuri (Letitia Wright) foram criados em Wakanda com conforto e toda a tecnologia do país à disposição, em um mundo protegido, Killmonger (Michael B. Jordan) foi criado em Los Angeles em um bairro pobre, tendo que se virar pra sobreviver até virar um tipo de mercenário. Killmonger acredita que a tecnologia de Wakanda deve ser utilizada para atacar o resto do mundo. Sua raiva é legítima, não é alimentada por alguma questão mística. Sua vida sempre foi difícil por ser um homem negro em um mundo racista. O mundo perfeito de Wakanda o incomoda porque ele acredita que tudo que existe ali deve ser divido entre aqueles que precisam daquela tecnologia para sobreviverem fora dali. Com uma construção de personagem boa, Killmonger é o ponto político do filme, lhe dando várias camadas.

As mulheres de Wakanda são incríveis, tão incríveis que conseguem apagar o Pantera Negra. Começando pela maravilhosa Angela Basset e toda sua majestade como a Rainha Ramonda, a inteligentíssima Shuri, responsável por toda a parte tecnológica de Wakanda, com um QI que deixa Tony Stark no chinelo. Passando por Nakia, Lupita Nyong’o, uma espiã do reino de Wakanda que luta ao lado de T’Challa desde sempre, chegando a maravilhosa general Okoye, interpretada por Danai Gurira (apenas a Michonne de The Walking Dead), chefe das Dora Milaje, o exército formado apenas por mulheres que protege Wakanda. A força de todas essas personagens é tão grande que elas brilham sozinhas, suas personagens são de extrema importância dentro do filme, o que as tornam os personagens mais fortes.

Ryan Coogler (diretor também de Creed) equilibra muito bem todas as questões raciais e política ao mundo fantasioso do super-herói, construindo um conto sobre tribos e poder dentro de uma cultura que não é familiar a maioria do público, de forma acessível sem ser superficial. O figurino de Ruth E. Carter, que conta a história da África através dos trajes muito bem pensados de todos os personagens, principalmente o do Pantera Negra, que mistura a modernidade com os padrões africanos usados por reis durante séculos. O fugurino de Okoye e das Dora Milaje também foi pensado em cima dos uniformes de guerra combinado com os trajes usados por mulheres africanas. Assim como o visual sempre verde de Nakia que é moderno e elegante. Shuri representa o futuro, com roupas mais modernas. A trilha sonora de Kendrick Lamar fecha o pacote com perfeição, transformando Pantera Negra em um filme de super-herói que corre por fora dos dogmas dos filmes do gênero. Ele apresenta toda a trajetória básica de um super-herói, construído em três atos, mas consegue ir além discutindo problemas sociais e políticos, mostrando que o mundo tem lugar para todos os heróis, para todo mundo e que nada menos do que isso será aceitado.

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