Perfil: J. R. R. Tolkien

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Meu primeiro contato com J. R. R. Tolkien não foi nada, nada fácil. Eu fui uma criança Harry Potter e, órfã de livros enquanto esperava o lançamento d’A Ordem da Fênix, procurei por indicações de histórias que fossem na mesma linha. Não me lembro bem quem foi, mas alguém me indicou “O Senhor dos Anéis”. Ledo engano. Apesar de as duas tramas serem fantásticas, não poderiam ser mais diferentes. Não digo aqui que um seja melhor que o outro, acho que cada um é sensacional no que se propõe. Mas indicar a uma menina de uns 13 anos, fanática por Harry Potter, que lesse “O Senhor dos Anéis” como passatempo enquanto o novo livro de HP não vinha, não poderia ser maior engano.

“Penso que, se deixarmos de lado o fato de que os livros falam de dragões, varinhas mágicas e magos, os livros de Harry Potter são muito diferentes, especialmente no tom. Tolkien criou toda uma mitologia. Não penso que alguém possa dizer que eu tenha feito isso.” — J.K.Rowling

Tolkien é um mestre, isso é indiscutível. Pra mim a única explicação é que talvez ele fosse um alien, ou tivesse uns três cérebros. Mas isso não quer dizer que sua leitura seja fácil, e começar com “A sociedade do Anel” foi bem difícil pra mim. Acabei desistindo e tendo resistência ao autor e, apesar de reconhecer que as tramas que criara eram absurdamente detalhistas e geniais, por muito tempo achei que ele não fosse era pra mim. Muitos anos depois, finalmente me conscientizei de que já era hora de dar uma nova chance ao Sir e resolvi ler “O Hobbit“. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que a leitura era muito mais fluida e muito mais fácil do que o bicho de sete cabeças que eu tinha criado como bloqueio (ainda não consegui terminar a trilogia d’O Senhor dos Anéis, mas é uma meta para 2015). Essa desmistificação de autores com os quais eu tinha trauma começou com a Clarice Lispector, mas isso fica para daqui a uns meses, no perfil dela. Enfim, ficou a lição: sempre dê uma segunda chance a um autor. Pode ser que na primeira tentativa o problema fosse com o livro que você escolheu, pode ser que fosse com a época em que tentou, ou apenas com você mesmo.

Sobre o mestre Tolkien: Ele nasceu na região onde hoje é a África do Sul, em janeiro de 1892. Aos três anos de idade mudou-se com sua família para a Inglaterra. Além de escritor, foi professor universitário e doutor em Letras e Filologia. A “Arda” (o “mundo secundário”, onde são ambientadas suas histórias) começou a ser criada quando ainda estava lutando na Primeira Guerra Mundial. Conhecido com “o pai da moderna literatura fantástica”, teve suas obras traduzidas para mais de 30 idiomas e, indubitavelmente, inspirou muitas outras gerações de autores de fantasia não só na literatura, mas também nos roteiros de cinema, além de RPG, games, quadrinhos e uma infinitude de produções culturais.

Casou-se com pouco mais de 20 anos e teve quatro filhos (dois são ainda vivos: Christopher e Priscila). Era um pai atencioso. Tinha o hábito, por exemplo, de escrever cartas do Papai Noel para os filhos quando eram crianças, acrescentando sempre vários personagens às histórias, como o Boneco de Neve e o Urso Polar. Era um grande amigo de C.S. Lewis (ambos muito devotos ao catolicismo), que foi um grande incentivador de “O Senhor dos Anéis” e o primeiro a ouvir a história.

Muito de sua vida pessoal inspirou sua obra, como a vida rural em Sarehole, que originou o Condado. Era exímio linguista, apaixonado por idiomas, e criou vários: a partir do finlandês fez o idioma élfico “Quenya” e, com base no galês, criou o “Sindarin”, só para citar alguns. Em 1925 publicou seu primeiro livro, “Sir Gawain & the Green Knight”, baseado no folclore inglês. No entanto, à época, já tinha o manuscrito de “Livro dos Contos perdidos” que posteriormente seria “O Silmarillion”. A ideia de “O Hobbit” veio em 1928, ao se deparar com uma página em branco entre os documentos de um dos alunos que queriam ingressar na Universidade.

“Um dos alunos deixou uma das páginas em branco – possivelmente a melhor coisa que poderia ocorrer a um examinador – e eu escrevi nela: Em um buraco no chão vivia um hobbit, não sabia e não sei por quê.” — Tolkien

Foi a partir desta frase que a trama começou a ser escrita e, após ter sido abandonada e retomada, o livro foi publicado por Tolkien em 1937. O hobbit Bilbo, os treze anões e o mago Gandalf fizeram um enorme sucesso. Quando demandado por novas aventuras, Tolkien ofereceu “O Silmarillion”, que ele considerava sua obra principal, no entanto o livro foi recusado. Tolkien então dedicou os doze anos seguintes à criação da sua obra mais famosa: “O Senhor dos Anéis”. A ideia inicial era publicar toda a obra em um único volume, mas para baixar os custos ela foi dividida em três: “A Sociedade do Anel”, “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”. Foram publicados, ainda, “Mestre Gil de Ham” (1949), “As Aventuras de Tom Bombadil” (1963), “Smith of Wootton Major” (1967), “Sobre Histórias de Fadas “(1965), entre outros. O autor recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford e também a “Ordem do Império Britânico”, tornando-se Sir John Ronald Reuel Tolkien. O mestre da literatura fantástica morreu aos 81 anos de idade, em setembro de 1973. “O Silmarillion” foi editado e publicado por seu filho Christopher em 1977. Christopher editou e publicou postumamente, ainda, uma série de outro manuscritos do pai no decorrer das décadas de 80 e 90.

Tolkien não só escreveu uma história muito boa, ele criou todo um mundo original. Que pulsa, que vive, que existe.  E, através dele,  alcançou aquele que talvez seja o sonho de todo autor: se tornou eterno.

“Filmar meus livros? É mais fácil filmar A Odisséia” – J. R. R. Tolkien

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