Por que perdeu?

Se há um momento em que toda a minha carioquice se manifesta é quando o tema é desfile de escola de samba. Meu coração é azul e branco e bate lá em Nilópolis, eu assisto todos os desfiles desde que me entendo por gente, seja em casa ou lá na Sapucaí, e acompanho apuração como se fosse final de Copa do Mundo. Quando o Jorge Perlingeiro canta as notas falando “Dez, nota dez” na praça da apoteose na quarta-feira de cinzas você pode ter certeza que eu estarei assistindo, que terei uma lista com as seis escolas que voltarão no desfile das campeãs e que essa lista tem um percentual de acerto bem alto, mas, coo boa torcedora que sou, não importa se na minha lista racional tem ou não a Beija-Flor, vou sofrer com cada décimo perdido e vibrar com cada dez, porque é a minha escola e nada me encanta mais do que vê-la na avenida. O livro de Marcelo de Mello fala exatamente de enredos que  encantaram torcedores de todas as coirmãs, que mudaram paradigmas da festa e que mesmo assim foram derrotados na frieza das notas dos jurados da Liesa.

Marcelo analisa dez desfiles que históricos que se tornaram mais importantes do que os campeões, tenta dar explicações do por quê eles são tão emblemáticos e faz um exercício de achismo pensando o que mudaria no mundo das escolas de samba se o encantamento tivesse superado os quesitos. São retratados dez desfiles de seis escolas diferentes. Cada desfile perdedor retratado recebe um tratamento jornalístico, temos as razões dos jurados, a cobertura da imprensa, entrevistas com os envolvidos e a percepção do próprio Marcelo sobre o que levou a imortalidade e ao mesmo tempo a derrota. Estão lá o emblemático trabalho de Maria Augusta a frente da União da Ilha e seus sambas imortais, a tradição e a seca de títulos do Império Serrano e Portela, as inovações da Mocidade, os desfiles grandiosos da Beija Flor e a modernidade da Unidos da Tijuca. São desfiles que vão de 1977 a 2004 e depois de ler cada capítulo é quase impossível não correr para o Youtube e buscar os registros desses desfiles e revê-los.

“Ratos e Urubus larguem minha fantasia” foi o enredo da Beija-Flor em 1989, eu tinha oito anos e é a minha primeira lembrança de encantamento com um desfile. Eu já passava as noites em frente a TV tentando me manter acordada para assistir os desfiles antes disso, mas foi naquela manhã, a escola entrou na avenida como dia claro, que fui capturada de vez pelos desfiles. Os mendigos, o Cristo de lixo, a genialidade de Joãosinho trinta. Um impacto desses não tem volta. Eu estava na avenida quando a Portela desfilou “Gosto que me enrosco” em 1995, ela era a penúltima escola a desfilar, o dia amanhecendo e as pessoas já estavam indo embora derrotadas pelo cansaço e com o desfile da Portela voltaram para as arquibancadas. Não tinha como resistir a tanto lirismo na avenida. Não há nota de jurado que apague da cabeça dos amantes de desfile momentos como esses. O impacto do carro do DNA na Tijuca em 2004 é um desses momentos, é aquele instante que você sabe que está vendo algo novo e que vai mudar o espetáculo dali em diante.

O livro me fez me reencontrar com sambas enredos que sei de cor, me fez ir assistir desfiles que sempre ouvi serem incríveis, destaque para a alegria de ver “O Mundo é uma Bola” da Beija-Flor,um desfile mítico onde pela primeira vez o chão da escola foi o destaque, caiu um toró desses típicos de verão e a Sapucaí alagou, a escola passou com agua nas canelas e fez um desfile desses que é impossível de não se aplaudir (avisei lá na abertura que meu coração é azul e branco). O trabalho de Marcelo faz isso com o leitor, o transporta para aqueles desfiles, aqueles sambas e gera uma saudade danada do carnaval, faltam ainda 294 dias.

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